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Heitor Freire

Nos tempos da FUCMAT I

Prestei vestibular para Direito em 1970 para o ano letivo que se iniciava em 1971.
Por circunstâncias de exigência da minha atividade na época não pude assistir às aulas com assiduidade, o que me levou a trancar a matrícula. Em 1975, pude então, dar continuidade aos meus estudos, concluindo o curso em 1979, a 1ª turma do novo estado Relato a seguir um fato interessante em que tive participação direta.
Em 1978, fui eleito representante do corpo discente junto ao Conselho Superior da Fucmat na chapa que elegeu como presidente do nosso Diretório Acadêmico Clóvis Belivacqua, o colega Delmor Vieira.
Ao final desse ano, aconteceu o seguinte fato: o diretor da nossa Faculdade era o padre Antunes, que substituíra o padre Scampini. O padre Antunes era um tanto introvertido; jovem ainda usava costeletas – de um lado, bem grossa e passando do meio do rosto e, do outro, era fina e bem mais curta – o que lhe compunha uma feição esquisita.
Tínhamos um colega, Noel Rossetti, da Policia Federal, que cursava o último ano e precisava do diploma para ser nomeado delegado. Aos sábados havia uma aula especial que tomava toda a tarde, ministrada no teatro Dom Bosco. Numa dessas aulas, Noel chegou afobado subindo as escadas de dois em dois degraus quando, chegando ao topo da escada, deu de cara com o padre Antunes, que lhe disse: “O senhor está atrasado e não pode entrar”. Noel argumentou: “Padre, eu estava fiscalizando um concurso que só terminou agora e não posso perder essa aula”. O padre voltou a dizer: “O senhor não entra” e, ato contínuo, deu uma peitada em Noel, que perdeu a cabeça e deu-lhe um soco fazendo-o rolar escada abaixo. O padre ficou fora de si, gritando: “Ele me bateu, vocês viram? ele me bateu!”.
Com Noel suspenso, foi instaurado um processo disciplinar. O padre foi ouvido, e também o Noel, testemunhas, etc. cuja tramitação foi se alongando muito.
Num determinado dia, recebi a informação do Delmor, presidente do nosso diretório acadêmico, de que o processo fora avocado pelo Conselho Superior da Fucmat, o que gerou um profundo mal estar, pois a competência era do Conselho da Faculdade, e que seria julgado no dia seguinte às 18 horas. Regularmente, eu deveria ser convocado por ser o representante do corpo discente naquele Conselho. Mas não fui. Porém, sabendo da realização da reunião, para lá me dirigi.
A porta estava fechada. Bati e o padre Walter Bocchi me atendeu. Ele era um padre muito querido por todos nós (tinha o apelido carinhoso de reizinho, pela sua semelhança com o personagem dos quadrinhos) ele disse: “O senhor não entra”, respondi: “Entro sim, sou do Conselho e se minha entrada for impedida, neste momento impetrarei um mandado de segurança”. Ante a minha firmeza, o padre disse: “Espere um pouco”, fechou a porta e depois retornou, permitindo a minha entrada.
O Conselho era formado por 16 pessoas, sendo 11 padres. Quando fui admitido à reunião, o assunto já estava sendo tratado. O padre Waldir Boghossian, que tinha uma aparência sinistra, era muito magro, com uma barba bem negra, parecendo um personagem da dita “santa” inquisição, pediu a palavra. Ele desancou Noel, falou do absurdo da situação, sem considerar que Noel, na verdade, havia reagido à agressão do padre Antunes. E foi por aí afora, afirmando que a hierarquia estava quebrada e que essa situação exigia uma atitude extrema: expulsão.
Ao acabar de falar, pegou o processo, já bem volumoso, e o jogou na minha frente. Eu, num gesto teatral, afastei o processo e disse: “Eu não conheço esse processo e nem quero conhecê-lo. Eu não estou aqui para defender o Noel. Estou aqui para defender a minha Faculdade de Direito que muito prezo e que está sendo violentada com esta usurpação de competência”. E perguntei ao padre Bocchi: “Como este processo veio parar neste Conselho?”. E ele, com aquela ingenuidade que o caracterizava, respondeu: “Eu peguei o processo e resolvi trazê-lo para este Conselho”. Retruquei: “Quer dizer, o senhor do alto da sua autoridade sem considerar ninguém, pega este processo, coloca-o debaixo do braço, convoca o Conselho, sem me avisar, e decide (talvez pressionado pelo padre Waldir e pelo padre Antunes), submetê-lo à apreciação do mesmo?”. “Sim”, disse ele.
Então virei-me para os conselheiros, e disse: “Senhores, atentem bem para o que está acontecendo. A hierarquia da Fucmat é que está sendo quebrada; na sua estrutura, cada Conselho tem a sua competência originária que deverá ser respeitada sempre, sob pena de ruir toda a sua construção, que de bem sólida passará a ser totalmente fragilizada. Este processo deve voltar para ser, em primeira instância, julgado pelo Conselho da Faculdade”. Era o que tinha a dizer.
A seguir, os conselheiros começaram a falar e dentre eles, o saudoso professor Sá Carvalho, que me deu total razão, dizendo inclusive que a Faculdade de Direito estava de parabéns por ter um aluno que não se acovardava ante um descalabro dessa natureza.
Colocada em votação secreta, a minha proposta foi aprovada por 11 a 4. Como disse lá atrás, dos 16 conselheiros, 11 eram padres. Foi de 11 a 4, porque, estranhamente, o representante da OAB, presidente da subseção de Campo Grande, absteve-se de votar, o que em minha opinião, foi uma omissão covarde.
E o processo voltou para o Conselho da Faculdade, presidido pelo professor Claudionor Miguel Abss Duarte – hoje desembargador –, onde Noel teve como defensor nosso colega Vanderlei Pithan, também eleito naquela eleição para representante do corpo discente junto àquele Conselho, hoje desembargador aposentado.
O padre Antunes, afirmara que era ele ou Noel. Se este fosse absolvido, ele renunciaria. O padre é um homem de palavra: renunciou.

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