Categorias
Heitor Freire

Do Deus Bíblico

Ao estudar a Bíblia, desde o começo,  constata-se que o deus bíblico – assim mesmo, com letra minúscula – é um deus dominador, colérico, irado, vingativo, arrogante, invejoso, condenador, cobrador, julgador, enfim, é dotado de todos os atributos próprios das pessoas e sem nenhuma semelhança com o Pai Altíssimo.
Começando com a proibição de se comer o fruto da árvore do bem  e do mal, impedindo ainda que  se comesse do fruto da árvore da vida, acabou promovendo a expulsão de Adão e Eva.
Essa situação interpretada de uma forma muito restritiva pela Igreja Católica, acabou se constituindo num fator de culpa eterna: somos todos condenados. Já nascemos julgados e condenados.
A história prossegue com a preferência manifestada pelo deus bíblico, pelos frutos oferecidos por  Abel – um pastor de ovelhas e de vida contemplativa – em contraste com a oferta de Caim, lavrador dedicado que teve suas oferendas, frutos do seu trabalho árduo, recusadas o que gerou a sua revolta assassinando o seu irmão e daí a sua condenação eterna, inapelável, com um sinal na testa.
E o que dizer desse deus que submeteu Abrahão à prova, exigindo o sacrifício de seu único filho com Sara, cuja concepção foi anunciada como um milagre?
A história bíblica é plena de  traições, de trapaças, como se vê por meio da ação, por exemplo, de Jacó, que, por um ardil, tomou a primogenitura de Esaú, confirmada depois, com ajuda da sua mãe, Rebeca, para obter a bênção de seu pai,  Isaac. Que se fez de desentendido, concordando implicitamente com esse verdadeiro complô.
O próprio deus bíblico manifesta claramente a sua preferência por Jacó, rebatizado por deus como Israel, que deu origem às doze tribos de Israel, decorrentes dos nomes de seus doze filhos. Nem se registra a descendência de Esaú, primogênito verdadeiro, e   este dito deus não podia ignorar que ele nasceu primeiro.
Interessante: no episódio de Moisés com o Faraó, em alguns trechos lemos –  após algumas das pragas –  Javé ( o deus bíblico), ele mesmo, endurecia o coração do Faraó, ou seja, ao mesmo tempo em que ele, Javé, enviava pragas ao povo do Egito, e o Faraó se sentia compelido a liberar o povo judeu,  também endurecia o seu coração, para que este não deixasse o povo hebreu partir – no mínimo  uma contradição, e não se pode dizer, seja uma ação  própria de DEUS.
Prosseguindo, puniu Moisés que comandou e liderou o povo hebreu por quarenta anos – atente bem leitor: quarenta anos – através do deserto, enfrentando as mais variadas intempéries, dificuldades de toda ordem, liderando um povo constituído de mais de seiscentas mil pessoas, porque teve um ato de dúvida na fonte de Meriba. Só lhe deixou contemplar a terra prometida, sem permitir que Moisés adentrasse nela.
Moisés, quando foi chamado para a libertação do povo, tinha oitenta anos, os quais, somados aos quarenta da travessia, chegam a cento e vinte, e em nenhum momento, apesar da idade avançada, esmoreceu diante da gigantesca tarefa que lhe foi reservada.
E quando o povo hebreu chegou finalmente à terra prometida – que segundo a Bíblia foi prometida por juramento do deus bíblico ( pode se conceber um verdadeiro Deus jurando?) já sob a liderança de Josué, desalojou os povos que lá viviam há centenas de anos –  os amorreus, ferezeus, cananeus, heteus, filisteus, gergeseus, heveus e jebuseus –  sem nenhuma complacência, demonstrando uma parcialidade contrária à ação de um Deus Universal, para quem todos os homens são seus filhos.
Interessante que a denominação de todos os povos, inclusive os judeus, terminava em “eus”.
Quando Josué morreu, o deus bíblico escolheu entre o povo alguns juízes, que se tornavam os dirigentes por um breve tempo. Quando o povo desobedecia, “acendia-se a ira de Javé” contra o povo, e assim era mais uma vez punido.
Atendendo ao clamor dos judeus, Javé suscitou-lhes um rei, Saul, ungido por Samuel como o  primeiro rei de Israel, em cujo reinado foi desafiado pelos filisteus para enfrentar o gigante Golias. Que foi vencido por Davi. E que por isso se tornou um herói do seu povo, gerando ciúme doentio em Saul, o qual buscava matá-lo de qualquer maneira. Por duas vezes, Davi teve Saul completamente entregue nas suas mãos, e não o atacou.
Quando Saul morreu, Davi foi ungido rei de Israel, iniciando um reinado que consolidou o território recebido. Em seu reinado, cometeu um ato criminoso ao determinar que Urias, um dos generais de seu exército, fosse enviado ao local mais perigoso de uma batalha e lá deixado sozinho para que fosse morto. E assim Davi pôde se casar com sua viúva Betsabé, de quem já estava enamorado. Ela foi a mãe de Salomão.
Salomão ascendeu ao trono sucedendo a Davi. Foi considerado o homem mais sábio do seu tempo. Consta que Javé lhe apareceu em sonho e lhe disse para pedir o que quisesse. Ele pediu a sabedoria, então Javé respondeu que “como não havia pedido vida longa, nem riquezas, nem a morte de seus inimigos, darei a você mente sábia e inteligente como ninguém teve antes  e ninguém terá depois”.
Salomão reinou durante quarenta anos. Construiu o Templo de Javé e o palácio real. Teve setecentas esposas e trezentas concubinas. Como será que ele fazia para dar conta de tantas mulheres e ainda governar o seu povo?
A partir de Salomão houve uma sucessão de reis que se caracterizaram muito mais pelas traições do que pela dedicação ao povo, merecendo muito justamente a “ ira de Javé”. Parece que essa tradição se mantém até hoje entre os líderes contemporâneos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *