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Nos tempos da Rua Dom Aquino III PDF Imprimir E-mail
Escrito por Heitor Freire   
Dom, 12 de Junho de 2011 00:00

A Rosaria, minha mulher, pelo lado paterno, é da família Escobar, de Bela Vista,  originária do Rio Grande do Sul. Quando os Escobar saíram do Rio Grande, entraram primeiro no Paraguai. E ali ficaram algum tempo. Lá o avô dela, Osório Escobar, conheceu aquela que seria sua mulher, Isabel, com quem se casou quando ela tinha 15 anos. Já casados a família seguiu viagem para o Brasil, adentrando por Bela Vista. E lá viveram por toda a vida.

O vô Osório, um perfeito autodidata, se constituiu num rábula muito competente, tornando-se profundo conhecedor dos meandros jurídicos sendo muito solicitado. Naquela época, meados do século XX, não havia advogado em Bela Vista e assim ele preencheu com muita competência o vácuo existente. Constantemente dirigia-se a Cuiabá por longos períodos, para acompanhar os processos que atendia em grau de recurso.
Do seu matrimônio nasceram 6 filhos, a quem ele deu nomes um tanto diferentes: Olímpio Guarany, Primitivo Aymoré (Xavi, meu sogro), Babel, Amparo, Hortêncio(Ticu) e Emílio (Chailho). Numa certa tarde, o casal se encontrava na varanda da casa da mãe do Vô Osório, eles já adentrados em anos, e o Vô disse: “A Isabel está ficando velha”. Ao que ela respondeu na lata: “En sus manos, señor”. Neutralizando a fina ironia na hora.   
Na década de 70, morávamos num apartamento do edifício Arnaldo Serra, localizado na rua D. Aquino, em frente às Lojas Americanas, no centro da nossa cidade. Como o nosso apartamento se localizava na área central da cidade, recebíamos com freqüência nossos parentes que moravam no interior. Estes eram nossos hóspedes, que vinham para tratar de assuntos comerciais ou de saúde. Apesar de o nosso apartamento dispor de dois quartos e apenas um banheiro, e nós já termos 5 filhas a Rosaria sempre dava jeito de acomodá-los, com carinho e conforto.
Uma dessas vezes, o tio Chailho com sua mulher - tia Diná, que moravam em Jardim, aqui aportaram para tratamento de saúde. Ao assistir à televisão à noite, ele ficou impressionado com a abertura do programa Planeta dos Homens, em que uma dançarina saia de uma banana. Ao notar o seu espanto, perguntei-lhe o motivo e ele me disse que, em Jardim, a TV tinha uma imagem toda chuviscada e ele não entendia o que acontecia na abertura desse programa. Só aí é que entendeu e gostou.
O tio Ticu, coletor em Bela Vista, frequentemente vinha a Campo Grande por necessidade de seu trabalho. Uma dessas vezes, ao chegar e abrir a sua mala tirou uma garrafa de uísque e me disse: “Esta é para você”. Agradeci, mas quando chegou à noite, ele disse: “Vamos tomar um gole?”. O que eu assenti, naturalmente. E assim foi por todos os dias que ele aqui ficou. Quando chegou o dia de sua partida, com a garrafa vazia, ele disse: “Você ficou pensando que, na realidade, eu trouxe o uísque para mim, não foi?”. E eu, embora constrangido, tive que admitir que sim. Aí então ele tirou outra garrafa de sua mala e falou: “Esta agora é para você sozinho”. Era um convivência muito agradável.
Eu tenho uma característica: sempre fiz amigos entre as pessoas que comigo trabalharam. Entre estes, o Aloysio Franco de Oliveira. Na década de 70, trabalhamos alguns anos juntos. E como amigo, às vezes almoçava no nosso apartamento, pois ele morava na Nova Campo Grande. Uma dessas vezes, na hora do almoço, uma vizinha tocou a campainha, e a Rosaria foi atender. A vizinha, entrando, ao nos avistar, um pouco constrangida disse que estava sem feijão e que o seu marido não comia sem feijão. Queria saber se a Rosaria teria um pouco de feijão pronto para dar-lhe.
A Rosaria assentiu e deu-lhe um prato de feijão da hora. Ao receber o prato, a vizinha falou: “Feijão preto? Não tem feijão mulatinho? Meu marido só come feijão mulatinho”. Ante a negativa da Rosaria, conformou-se em receber esse mesmo. O Aloysio comentou que se fosse com ele, não daria mais.
Cenas inesquecíveis cuja lembranças fazem muito bem ao espírito.

Última atualização em Ter, 09 de Outubro de 2012 16:13
 
Na fila PDF Imprimir E-mail
Escrito por Heitor Freire   
Sáb, 10 de Dezembro de 2011 00:00

A partir do momento em que passei a me dedicar ao hábito de escrever, fui identificando em mim um senso de observação acurado, prestando mais atenção ao que acontece ao meu redor e passei a registrar alguns fatos que anteriormente me passavam despercebidos.
A responsabilidade decorrente do ato de escrever, aliada ao interesse de proporcionar aos leitores uma visão clara do que pretendo me leva, naturalmente, a um cuidado quanto aos temas e à forma de expressar o meu entendimento, pois o ato de escrever é uma arte que exige atenção especial, porque, para mim, cada artigo é uma obra a que dedico o meu tempo e o meu conhecimento.

Assim, cada texto merece uma formalidade, um molde, como se fosse uma escultura, com a busca cuidadosa das palavras para proporcionar ao leitor maior clareza de entendimento. Valho-me com frequência do Dicionário Analógico da Língua Portuguesa de Francisco Ferreira dos Santos Azevedo.
Dentro do nosso comportamento habitual – fruto da minha observação –, há uma situação a que todos nós nos subordinamos, mas para a qual muitas vezes não damos atenção: agimos automaticamente porque certas coisas estão tão entronizadas em nosso cotidiano que já nos acostumamos a elas. Refiro-me às filas. Hoje e sempre há fila para tudo: para os bancos, para os caixas, lotéricas, supermercados, ônibus, consultas, enfim para todas as nossas atividades lá está ela, impávida: sua majestade, a fila. Que nos proporciona a todos também uma oportunidade de exercitarmos em primeiro lugar a educação e em segundo a paciência, e por último e não menos importante, a civilidade.
O comportamento das pessoas nas filas também nos permite um aprendizado: às vezes, arrogante, às vezes autoritário, às vezes na simplicidade, na humildade, sendo sempre um fator de crescimento espiritual. Existe uma teoria de que a fila vizinha anda mais rápido do que aquela em que nós estamos. Se mudarmos de fila, a anterior vai andar mais rápido. É sempre assim. Por quê? Não sei.
Há também as filas preferenciais para idosos e para deficientes físicos. Eu sempre fico observando, porque embora às vezes a fila preferencial esteja menor do que a convencional, nem sempre é a melhor decisão usá-la, porque alguns idosos já sem o que fazer são utilizados pelos parentes para pagar todo e qualquer tipo de compromisso. Assim, quando abrem a bolsa, começam a tirar carnês infinitos de pagamento das mais diversas modalidades, cansando os que estavam com a esperança de um atendimento mais rápido.
A questão das filas é tão importante que mereceu um estudo técnico-científico do professor Luciano Cajado Costa, professor-substituto da Universidade Federal do Maranhão, do curso de Ciência da Computação, com o título de “Teoria das Filas e Simulação”. O texto é longo: mais de 90 páginas, através das quais ele formula a teoria e a embasa em fórmulas matemáticas da mais alta complexidade de difícil entendimento para um leigo como eu.
Para que se tenha uma ideia do quanto é intricada a questão, transcrevo a seguir algumas de suas considerações, evidentemente sem chegar às suas formulações matemáticas:
“Todas as pessoas já passaram pelo aborrecimento de ter que esperar em filas (algumas conclusões chegam à obviedade do óbvio). As formações de filas ocorrem porque a procura pelo serviço é maior do que a capacidade do sistema de atender a esta procura. Dessa forma, a Teoria das Filas tenta através de análises matemáticas detalhadas encontrar um ponto de equilíbrio que satisfaça o cliente e seja viável economicamente para o provedor do serviço.
“Na maioria dos casos, seis características básicas de processos de filas fornecem uma descrição adequada de um sistema de filas: (1) padrão de chegada dos clientes, (2) padrão de serviço dos servidores, (3) disciplina de filas, (4) capacidade do sistema, (5) número de canais de serviço e (6) número de estágio de serviços.
“Nos processos de filas comuns, os processos de chegadas são estocásticos, (viram só? È isso que dá querer mexer com cientistas), ou seja, desenvolvem-se no tempo e no espaço conforme leis de probabilidade. Assim, é necessário conhecer a distribuição de probabilidade descrevendo os tempos entre as sucessivas chegadas dos clientes (tempos de interchegada).
“Um fator final que pode ser considerado apesar do padrão de chegada é a maneira no qual o padrão muda com o tempo. Um padrão de chegada que não muda com o tempo (ou seja, que a distribuição de probabilidade descrevendo o processo de chegada é independente do tempo) é chamado padrão de chegada estacionário. Um que não é independente do tempo é chamado não-estacionário”.
Como podem perceber, caros leitores, a questão da fila não é tão simples quanto parecia para um simples escrevedor. Para finalizar, há uma fila da qual ninguém escapa: a fila da morte. Desde que nascemos, entramos nela e não sabemos quando nem como vamos sair, mas que vamos sair isso vamos, mais cedo ou mais tarde. Faz parte.

Última atualização em Ter, 09 de Outubro de 2012 16:16
 
Magistral PDF Imprimir E-mail
Escrito por Heitor Freire   
Sáb, 24 de Dezembro de 2011 00:00

Essa foi a palavra que me veio naturalmente ao ler o artigo do professor Hildebrando Campestrini, “Nelson – e os pequis?”, publicado no Correio do Estado, edição de 24 de dezembro último: magistral, de magister, de mestre e também de coração.
Nesse artigo transparece de forma lúcida e fraternal a amizade que ligava o professor Campestrini ao dr. Nelson Trad. Ele soube, como sempre, registrar o seu sentimento e a sua emoção pela partida do amigo. Não há dor; há saudade, dos momentos que não se repetirão mais. Mas, ao mesmo tempo, há a certeza de um reencontro futuro: “Vá, irmão. Irei mais tarde”.

A amizade genuína como a que unia Nelson e Campestrini requereu tempo, esforço e trabalho para ser mantida. Amizade é algo profundo. De fato, é uma forma de amor. O grande tribuno romano Cícero relata uma situação dessa natureza: a que unia Damon e Pítias, discípulos de Pitágoras, cuja amizade foi submetida a uma prova  exigente quando o rei Dionísio de Siracusa – que se aborrecera pelo fato de Pítias ter dito em público que nenhum homem deveria ter poder ilimitado sobre o outro e que os tiranos absolutos eram reis injustos – determinou a morte de Pítias. Este obteve a permissão de se despedir de sua família que residia em outra cidade. Para que Pítias pudesse viajar, Damon se ofereceu para ficar preso no lugar do amigo e, se fosse o caso, cumpriria a sentença. Pítias chegou no dia da execução todo ferido porque seu barco naufragara e, além disso, ele havia sido atacado por bandidos na estrada. Damon estava pronto para o sacrifício. O rei Dionisio, ao testemunhar tamanha dedicação e lealdade, perdoou Pítias e pediu para fazer parte desse grupo.
Em todas as ocasiões em que, no Instituto Histórico e Geográfico, quando reunidos, falávamos a respeito de Nelson Trad, o professor se manifestava de forma carinhosa, respeitosa, admirando o comportamento do amigo que se foi.
Com o falecimento recente do dr. Nelson, inúmeras manifestações já foram feitas e naturalmente continuarão, pois a vida dele se constituiu numa constante de atos significativos, marcantes, corajosos. Assim, lemos o artigo do dr. Ruben Figueiró de Oliveira, “Éramos três”, e logo depois o dr. José da Cruz Bandeira, “Éramos dois”, todos homenageando e recordando essa figura ímpar do nosso estado e da nossa melhor política. O Correio do Estado em editorial antológico registrou a contribuição dele para a história e a política em nosso estado.
Eu fui aluno, por um breve tempo, do dr. Nelson na faculdade de direito da Fucmat, no 2º ano, quando se começa a estudar direito penal. Ter um professor da envergadura de Nelson Trad foi marcante. Ele tinha uma maneira própria de enfatizar a palavra, quando unia ao discurso o seguinte gesto: juntar o polegar da mão direita com o indicador e, assim, com demais dedos estendidos no ar, dava força gestual ao assunto que estivesse abordando. Eu ficava intrigado com a pronúncia dele para a palavra inquérito: ele dizia “incuérito”, ficava bem esquisito. Mas no meu banco de estudante, acompanhando, eletrizado, a sua aula, eu não ousava perguntar. Pensava em perguntar em outra ocasião. Que nunca chegou.
Minha turma de direito teve entre os professores de direito penal, além dele, outros luminares dessa especialidade: Rêmolo Leteriello, Ricardo Trad, Jorge Antônio Siufi, Hélvio Freitas Pissurno e  Elenice Pereira Carille.
Nelson e Therezinha legaram ao nosso povo uma herança das mais representativas: Nelson, Marcos, Fábio e suas filhas. Os varões seguem os passos do patriarca de forma consciente, ativa, marcante e significativa. Nelsinho conclui seu segundo mandato como prefeito (eleito da última vez, com mais de 70% dos votos) e soube montar uma equipe de elevado gabarito que transformou o cenário de Campo Grande: hoje um grande jardim e com avenidas largas que tornaram  nossa cidade mais bela, com um tráfego mais fluido, uma cidade gostosa para  viver.
Marcos, o deputado Marquinhos Trad, já no seu terceiro mandato de deputado estadual, marca sua trajetória de forma corajosa, não se curva a mandos nem desmandos de quem quer que seja e age sempre de forma independente.
Fábio, que exerceu a presidência da nossa OAB de forma inteligente, criativa e ousada, soube asfaltar o caminho para suceder ao pai na Câmara Federal, onde já se destaca como presidente da comissão que analisa o novo código de processo civil.
Agora que os filhos perderam a presença orientadora e estimulante pai, eles contam com a mãe: Therezinha, mulher forte que tem origem, é Mandetta. Quem ainda tem o privilégio de ter a mãe viva, pode fazer uma experiência que tem um efeito renovador: cheguem-se ao regaço da mãe. Foi daí que cruzaram o umbral para a vida. E aí sentirão uma energia renovadora. Porque mãe é fonte.

Última atualização em Ter, 09 de Outubro de 2012 18:10
 
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