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Nos tempos da Rua Dom Aquino IV PDF Imprimir E-mail
Escrito por Heitor Freire   
Sáb, 12 de Novembro de 2011 00:00

Como já relatei antes, no apartamento do edifício Arnaldo Serra, onde eu vivi com a minha família na década de 70, nos sempre tínhamos como hóspedes, os parentes que vinham do interior para passeio, tratar da saúde ou de negócios. Assim hospedamos também algumas vezes, o tio Matajá, Alberto Costa (casado com a tia Júlia) farmacêutico prático que quando tinha farmácia no distrito de Campestre, localizado entre Ponta Porã e Bela Vista, fazia também as vezes de médico.

Ele dizia que se não curasse, matava já – daí o seu apelido. Ele foi aprendendo a medicar e o fazia muito bem. Uma das vezes que aqui esteve sofreu um princípio de enfarto e foi internado num dos mais renomados hospitais da nossa capital. Ao voltar a si, perguntou quanto seria a conta do atendimento. Ao saber, arrancou todos os fios que o ligavam aos aparelhos e falou que estava curado, dando-se alta por ato próprio.
Um dos nossos hóspedes mais frequentes eram tio Ticu (Hortêncio Rôa Escobar, irmão do meu sogro), e a sua mulher, tia Bernarda. Eles tiveram uma vida muito movimentada e até fascinante. Tiveram quatro filhos que, naturalmente, passaram a conviver com seus outros quatro irmãos do primeiro casamento dela. A tia Bernarda é uma cozinheira de mão cheia e muito trabalhadora. Enfrentando junto com o tio Ticu as dificuldades iniciais que todo casal enfrenta, resolveram montar um bar em Bela Vista, a que deram o nome de A Petisqueira, cujos salgados deliciosos eram preparados por ela.
Para diversificar as atividades, o tio Ticu se tornou agente da loteria estadual de Mato Grosso, vendendo os seus bilhetes. Na véspera da data do sorteio semanal, os bilhetes remanescentes deveriam ser devolvidos por malote com hora e data do embarque certificados. Pois bem. Uma vez, o tio Ticu precisou viajar e deixou bem recomendando que não se esquecessem da devolução, a tempo e hora, dos bilhetes não vendidos. Acontece que a tia Bernarda envolvida com os salgados e o atendimento do bar, acabou se esquecendo de tomar essa providência. Quando se lembrou já era tarde. Aí não tinha mais jeito, foi um Deus me acuda. Ficou muito contrariada. Como explicar para o tio? Para resumir a história, um dos bilhetes que ficaram foi o premiado e eles ganharam o grande prêmio. Demonstrando-se assim, mais uma vez, que Deus escreve certo por linhas tortas.
Foi assim que eles compraram a casa com fundos para o rio Apa, onde se estabeleceram com um comércio. Logo depois ele passou no concurso para coletor e fecharam a casa comercial. O tio Ticu tinha um amigo advogado, Carlinhos Medeiros que dizia que agora, com a mudança do status social, ele tinha que mudar o seu apelido para Tiânus.
A tia Bernarda vive lá até hoje, na casa adquirida com o dinheiro ganho na loteria, na plenitude de seus noventa anos recentemente comemorados, cercada pelo respeito e carinho da população de Bela Vista e pelos seus filhos, netos, bisnetos e trinetos. Vivendo sempre com a alegria que lhe é peculiar.
No prédio onde morávamos, o Arnaldo Serra, fizemos naturalmente muitas amizades, muitas vezes decorrentes dos relacionamentos das nossas filhas que sempre foram muito comunicativas.
Lembro-me do casal Moacir e Leontina. Ele trabalhava no Frigorífico Bordon. Tinham seis filhos, quatro homens e duas meninas. Destes se destacava a Silvana, a caçula, uma loirinha muito simpática, alegre e bonita. Ela cantava aos domingos num programa da TV Morena “Faça uma criança sorrir”, apresentado pelo grande comunicador João Bosco de Medeiros – que até hoje está no ar comandando agora um programa de rádio “Alto Astral”. Ela era a celebridade do prédio. Apesar de toda popularidade que desfrutava sempre foi muito simples sem se deixar envolver pelos destaques dos holofotes.
Como é bom ter histórias como estas para contar.

Última atualização em Ter, 09 de Outubro de 2012 16:15
 
Nos tempos da Rua Dom Aquino III PDF Imprimir E-mail
Escrito por Heitor Freire   
Dom, 12 de Junho de 2011 00:00

A Rosaria, minha mulher, pelo lado paterno, é da família Escobar, de Bela Vista,  originária do Rio Grande do Sul. Quando os Escobar saíram do Rio Grande, entraram primeiro no Paraguai. E ali ficaram algum tempo. Lá o avô dela, Osório Escobar, conheceu aquela que seria sua mulher, Isabel, com quem se casou quando ela tinha 15 anos. Já casados a família seguiu viagem para o Brasil, adentrando por Bela Vista. E lá viveram por toda a vida.

O vô Osório, um perfeito autodidata, se constituiu num rábula muito competente, tornando-se profundo conhecedor dos meandros jurídicos sendo muito solicitado. Naquela época, meados do século XX, não havia advogado em Bela Vista e assim ele preencheu com muita competência o vácuo existente. Constantemente dirigia-se a Cuiabá por longos períodos, para acompanhar os processos que atendia em grau de recurso.
Do seu matrimônio nasceram 6 filhos, a quem ele deu nomes um tanto diferentes: Olímpio Guarany, Primitivo Aymoré (Xavi, meu sogro), Babel, Amparo, Hortêncio(Ticu) e Emílio (Chailho). Numa certa tarde, o casal se encontrava na varanda da casa da mãe do Vô Osório, eles já adentrados em anos, e o Vô disse: “A Isabel está ficando velha”. Ao que ela respondeu na lata: “En sus manos, señor”. Neutralizando a fina ironia na hora.   
Na década de 70, morávamos num apartamento do edifício Arnaldo Serra, localizado na rua D. Aquino, em frente às Lojas Americanas, no centro da nossa cidade. Como o nosso apartamento se localizava na área central da cidade, recebíamos com freqüência nossos parentes que moravam no interior. Estes eram nossos hóspedes, que vinham para tratar de assuntos comerciais ou de saúde. Apesar de o nosso apartamento dispor de dois quartos e apenas um banheiro, e nós já termos 5 filhas a Rosaria sempre dava jeito de acomodá-los, com carinho e conforto.
Uma dessas vezes, o tio Chailho com sua mulher - tia Diná, que moravam em Jardim, aqui aportaram para tratamento de saúde. Ao assistir à televisão à noite, ele ficou impressionado com a abertura do programa Planeta dos Homens, em que uma dançarina saia de uma banana. Ao notar o seu espanto, perguntei-lhe o motivo e ele me disse que, em Jardim, a TV tinha uma imagem toda chuviscada e ele não entendia o que acontecia na abertura desse programa. Só aí é que entendeu e gostou.
O tio Ticu, coletor em Bela Vista, frequentemente vinha a Campo Grande por necessidade de seu trabalho. Uma dessas vezes, ao chegar e abrir a sua mala tirou uma garrafa de uísque e me disse: “Esta é para você”. Agradeci, mas quando chegou à noite, ele disse: “Vamos tomar um gole?”. O que eu assenti, naturalmente. E assim foi por todos os dias que ele aqui ficou. Quando chegou o dia de sua partida, com a garrafa vazia, ele disse: “Você ficou pensando que, na realidade, eu trouxe o uísque para mim, não foi?”. E eu, embora constrangido, tive que admitir que sim. Aí então ele tirou outra garrafa de sua mala e falou: “Esta agora é para você sozinho”. Era um convivência muito agradável.
Eu tenho uma característica: sempre fiz amigos entre as pessoas que comigo trabalharam. Entre estes, o Aloysio Franco de Oliveira. Na década de 70, trabalhamos alguns anos juntos. E como amigo, às vezes almoçava no nosso apartamento, pois ele morava na Nova Campo Grande. Uma dessas vezes, na hora do almoço, uma vizinha tocou a campainha, e a Rosaria foi atender. A vizinha, entrando, ao nos avistar, um pouco constrangida disse que estava sem feijão e que o seu marido não comia sem feijão. Queria saber se a Rosaria teria um pouco de feijão pronto para dar-lhe.
A Rosaria assentiu e deu-lhe um prato de feijão da hora. Ao receber o prato, a vizinha falou: “Feijão preto? Não tem feijão mulatinho? Meu marido só come feijão mulatinho”. Ante a negativa da Rosaria, conformou-se em receber esse mesmo. O Aloysio comentou que se fosse com ele, não daria mais.
Cenas inesquecíveis cuja lembranças fazem muito bem ao espírito.

Última atualização em Ter, 09 de Outubro de 2012 16:13
 
Na fila PDF Imprimir E-mail
Escrito por Heitor Freire   
Sáb, 10 de Dezembro de 2011 00:00

A partir do momento em que passei a me dedicar ao hábito de escrever, fui identificando em mim um senso de observação acurado, prestando mais atenção ao que acontece ao meu redor e passei a registrar alguns fatos que anteriormente me passavam despercebidos.
A responsabilidade decorrente do ato de escrever, aliada ao interesse de proporcionar aos leitores uma visão clara do que pretendo me leva, naturalmente, a um cuidado quanto aos temas e à forma de expressar o meu entendimento, pois o ato de escrever é uma arte que exige atenção especial, porque, para mim, cada artigo é uma obra a que dedico o meu tempo e o meu conhecimento.

Assim, cada texto merece uma formalidade, um molde, como se fosse uma escultura, com a busca cuidadosa das palavras para proporcionar ao leitor maior clareza de entendimento. Valho-me com frequência do Dicionário Analógico da Língua Portuguesa de Francisco Ferreira dos Santos Azevedo.
Dentro do nosso comportamento habitual – fruto da minha observação –, há uma situação a que todos nós nos subordinamos, mas para a qual muitas vezes não damos atenção: agimos automaticamente porque certas coisas estão tão entronizadas em nosso cotidiano que já nos acostumamos a elas. Refiro-me às filas. Hoje e sempre há fila para tudo: para os bancos, para os caixas, lotéricas, supermercados, ônibus, consultas, enfim para todas as nossas atividades lá está ela, impávida: sua majestade, a fila. Que nos proporciona a todos também uma oportunidade de exercitarmos em primeiro lugar a educação e em segundo a paciência, e por último e não menos importante, a civilidade.
O comportamento das pessoas nas filas também nos permite um aprendizado: às vezes, arrogante, às vezes autoritário, às vezes na simplicidade, na humildade, sendo sempre um fator de crescimento espiritual. Existe uma teoria de que a fila vizinha anda mais rápido do que aquela em que nós estamos. Se mudarmos de fila, a anterior vai andar mais rápido. É sempre assim. Por quê? Não sei.
Há também as filas preferenciais para idosos e para deficientes físicos. Eu sempre fico observando, porque embora às vezes a fila preferencial esteja menor do que a convencional, nem sempre é a melhor decisão usá-la, porque alguns idosos já sem o que fazer são utilizados pelos parentes para pagar todo e qualquer tipo de compromisso. Assim, quando abrem a bolsa, começam a tirar carnês infinitos de pagamento das mais diversas modalidades, cansando os que estavam com a esperança de um atendimento mais rápido.
A questão das filas é tão importante que mereceu um estudo técnico-científico do professor Luciano Cajado Costa, professor-substituto da Universidade Federal do Maranhão, do curso de Ciência da Computação, com o título de “Teoria das Filas e Simulação”. O texto é longo: mais de 90 páginas, através das quais ele formula a teoria e a embasa em fórmulas matemáticas da mais alta complexidade de difícil entendimento para um leigo como eu.
Para que se tenha uma ideia do quanto é intricada a questão, transcrevo a seguir algumas de suas considerações, evidentemente sem chegar às suas formulações matemáticas:
“Todas as pessoas já passaram pelo aborrecimento de ter que esperar em filas (algumas conclusões chegam à obviedade do óbvio). As formações de filas ocorrem porque a procura pelo serviço é maior do que a capacidade do sistema de atender a esta procura. Dessa forma, a Teoria das Filas tenta através de análises matemáticas detalhadas encontrar um ponto de equilíbrio que satisfaça o cliente e seja viável economicamente para o provedor do serviço.
“Na maioria dos casos, seis características básicas de processos de filas fornecem uma descrição adequada de um sistema de filas: (1) padrão de chegada dos clientes, (2) padrão de serviço dos servidores, (3) disciplina de filas, (4) capacidade do sistema, (5) número de canais de serviço e (6) número de estágio de serviços.
“Nos processos de filas comuns, os processos de chegadas são estocásticos, (viram só? È isso que dá querer mexer com cientistas), ou seja, desenvolvem-se no tempo e no espaço conforme leis de probabilidade. Assim, é necessário conhecer a distribuição de probabilidade descrevendo os tempos entre as sucessivas chegadas dos clientes (tempos de interchegada).
“Um fator final que pode ser considerado apesar do padrão de chegada é a maneira no qual o padrão muda com o tempo. Um padrão de chegada que não muda com o tempo (ou seja, que a distribuição de probabilidade descrevendo o processo de chegada é independente do tempo) é chamado padrão de chegada estacionário. Um que não é independente do tempo é chamado não-estacionário”.
Como podem perceber, caros leitores, a questão da fila não é tão simples quanto parecia para um simples escrevedor. Para finalizar, há uma fila da qual ninguém escapa: a fila da morte. Desde que nascemos, entramos nela e não sabemos quando nem como vamos sair, mas que vamos sair isso vamos, mais cedo ou mais tarde. Faz parte.

Última atualização em Ter, 09 de Outubro de 2012 16:16
 
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