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Das coisas II PDF Imprimir E-mail
Escrito por Heitor Freire   
Sex, 06 de Abril de 2018 21:21
DAS COISAS II
No artigo da semana passada, DAS COISAS, tratei de um tema que obtive por indicação de uma amiga, e informei que era de autoria desconhecida. Mas depois soube por uma outra amiga, Marisa Nachif, publicitária e designer, que o autor do texto que citei é Francicarlos  Diniz, jornalista, paraibano (tinha que ser nordestino), e o tal trecho consta no seu primeiro livro “Coisas do Português”.
Francicarlos, por si só já é uma prova do sistema que os nordestinos adotam, de modo geral, juntando nomes ou inventando com a junção do nome do pai com o da mãe. Eu tinha um amigo, recentemente falecido, o Raiman, cujo nome era uma criativa fusão de Raimunda com Manoel, nomes de seus pais. E olha que seu Manoel era baiano, mas o nome do Raiman soava como se fosse estrangeiro.
Como todos sabemos, os nordestinos são de uma inteligência e de uma criatividade fora do comum. Se fôssemos citar os que se destacaram na história, faltaria tinta e papel para registrar todos eles. Só para mencionar alguns, a voo de pássaro, me lembro de Luiz Gonzaga, Humberto Teixeira, Renato Aragão, Chico Anísio, Fagner. Gil e Caetano, Ariano Suassuna, Jorge Amado, Gilberto Freyre e muitos outros que não cito por falta de espaço.
Agora, por uma questão de justiça e de princípio, me vejo na circunstância de retificar a minha informação anterior, para mais uma vez aqui reforçar o nome do autor, Francicarlos Diniz, merecidamente. Segundo o crítico Antonio Miranda, “Francicarlos é um poeta minimalista, descontrói e descontrói os versos, não raras vezes, com a visão/versão de um concretista”.
Como o texto é longo, aproveito esta retificação para deleitar nossos leitores com mais algumas passagens deliciosas:
“O substantivo ‘coisa’ assumiu tantos valores que cabe em quase todas as situações cotidianas.
A natureza das coisas: gramaticalmente, ‘coisa’ pode ser substantivo, adjetivo, advérbio. Também pode ser verbo: o Houaiss registra a forma ‘coisificar’. E no Nordeste há ‘coisar: ‘Ô, seu coisinha, você já coisou aquela coisa que eu mandei você coisar?’.
Coisar, em Portugal, equivale ao ato sexual, lembra Josué Machado. Já as ‘coisas’ nordestinas são sinônimas dos órgãos genitais, registra o Aurélio. ‘E deixava-se possuir pelo amante, que lhe beijava os pés, as coisas, os seios’ (Riacho Doce, José Lins do Rego).
Na literatura, a ‘coisa’ é coisa antiga. Antiga, mas modernista: Oswald de Andrade escreveu a crônica O Coisa em 1943. A Coisa é título de romance de Stephen King. Simone de Beauvoir escreveu A Força das Coisas, e Michel Foucault, As Palavras e as Coisas.
Sampa também tem dessas coisas (coisa de louco!), seja quando canta ‘Alguma coisa acontece no meu coração’, de Caetano Veloso, ou quando vê o Show de Calouros, do Silvio Santos (que é coisa nossa).
Coisa não tem sexo: pode ser masculino ou feminino. Coisa-ruim é o capeta. Coisa boa é a Juliana Paes. Nunca vi coisa assim! Coisa de cinema! A Coisa virou nome de filme de Hollywood, que tinha o seu Coisa no recente Quarteto Fantástico. Extraído dos quadrinhos, na TV o personagem ganhou também desenho animado, nos anos 70. E no programa Casseta e Planeta, Urgente!, Marcelo Madureira faz o personagem ‘Coisinha de Jesus’.
Coisa também não tem tamanho. Na boca dos exagerados, ‘coisa nenhuma’ vira ‘coisíssima’.
Por essas e por outras, é preciso colocar cada coisa no devido lugar. Uma coisa de cada vez, é claro, pois uma coisa é uma coisa; outra coisa é outra coisa. E tal coisa, e coisa e tal. O cheio de coisas é o indivíduo chato, pleno de não-me-toques. O cheio das coisas, por sua vez, é o sujeito estribado. Gente fina é outra coisa. Para o pobre, a coisa está sempre feia: o salário-mínimo não dá pra coisa nenhuma.
Se você aceita qualquer coisa, logo se torna um coisa qualquer, um coisa-à-toa. Numa crítica feroz a esse estado de coisas, no poema Eu, Etiqueta, Drummond radicaliza: ‘Meu nome novo é coisa. Eu sou a coisa, coisamente’. E, no verso do poeta, ‘coisa’ vira ‘cousa’.
Mas, ‘deixemos de coisa, cuidemos da vida, senão chega a morte ou coisa parecida’, cantarola Fagner em Canteiros, baseado no poema Marcha, de Cecília Meireles, uma coisa linda.
Entendeu o espírito da coisa?
Se não entendeu, desculpe qualquer coisa”.
Fica registrada a minha admiração e a minha gratidão ao talento de Francicarlos Diniz,que é autor também de “Moinho de Inventos (O livro das ruminâncias)”, que deve ser outro livro delicioso de se ler.
Para finalizar: “Há mais coisas entre o céu e a terra do que imagina a nossa vã filosofia” (Shakespeare).
Mas que coisa!
Heitor Rodrigues Freire – Corretor de imóveis e advogado.

No artigo da semana passada, DAS COISAS, tratei de um tema que obtive por indicação de uma amiga, e informei que era de autoria desconhecida. Mas depois soube por uma outra amiga, Marisa Nachif, publicitária e designer, que o autor do texto que citei é Francicarlos  Diniz, jornalista, paraibano (tinha que ser nordestino), e o tal trecho consta no seu primeiro livro “Coisas do Português”.

Francicarlos, por si só já é uma prova do sistema que os nordestinos adotam, de modo geral, juntando nomes ou inventando com a junção do nome do pai com o da mãe. Eu tinha um amigo, recentemente falecido, o Raiman, cujo nome era uma criativa fusão de Raimunda com Manoel, nomes de seus pais. E olha que seu Manoel era baiano, mas o nome do Raiman soava como se fosse estrangeiro.

 
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Escrito por Heitor Freire   
Seg, 02 de Abril de 2018 17:03
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DAS COISAS
Não conheço nenhum termo mais abrangente, mais universal e que designe tantos fatos, objetos reais ou abstratos, do que coisa. Coisa é tudo o que existe ou pode ter existência. É tudo o que não pode ser particularizado pelo nome.
Quando Deus criou Adão, deu-lhe competência para dar nome a tudo e a todos. “Então Deus formou do solo todas as feras e todas as aves do céu. E as apresentou ao homem para ver com que nome ele as chamaria: cada ser levaria o nome que o homem lhe desse” (Gn 2,19). E Adão deu nome a tudo. NOME. De onde saiu então coisa? Acredito que saiu da impossibilidade de identificar determinadas situações ou objetos e também da preguiça mental do ser humano.
Coisa é tudo o que existe ou que pode ter existência. O que pode ser alvo de apropriação: ele possui poucas coisas. O que ocorre; acontecimento: o curso natural das coisas. O que é real em oposição ao que é abstrato: quero coisas e não promessas. Pode ser chamado também de negócio, troço. É ainda o que caracteriza um fato, evento, circunstância, pessoa, condição ou estado: essa chatice é coisa sua? O assunto em questão; matéria: não me fale dessas coisas! Viemos aqui tratar de coisas relevantes. Pode ser também indisposição pessoal; mal-estar inesperado; ataque: estava bem, de repente me deu uma coisa e passei mal..
Enfim, a universalidade do termo torna coisa um componente permanente em nossas vidas e em nosso vocabulário do dia-a-dia.
A respeito deste tema, recebi uma mensagem da Condessa do Rio Apa, Vera Tylde de Castro Pinto, de autor desconhecido, mas que com muita criatividade e inteligência discorre sobre o assunto. Transcrevo algumas partes:
“A palavra ‘coisa’ é um bombril do idioma.
Tem mil e uma utilidades.
É aquele tipo de termo-muleta ao qual a gente recorre sempre que nos faltam
palavras para exprimir uma ideia.
Já em Minas Gerais , todas as coisas são chamadas de trem. (menos o trem,
que lá é chamado de ‘coisa’). A mãe está com a filha na estação, o trem se
aproxima e ela diz: "Minha filha, pega os trem que lá vem a ‘coisa’!.
E no Rio de Janeiro?
Olha que ‘coisa’ mais linda, mais cheia de graça...
A garota de Ipanema era coisa de fechar o trânsito!
Mas se ela voltar, se ela voltar, que ‘coisa’ linda, que ‘coisa’ louca.
Coisas de Jobim e de Vinicius, que sabiam das coisas.
Coisa também não tem tamanho.
Na boca dos exagerados, ‘coisa nenhuma’ vira um monte de coisas...
Por essas e por outras, é preciso colocar cada coisa no devido lugar.
Uma coisa de cada vez, é claro, afinal, uma coisa é uma coisa; outra coisa é outra coisa.
E tal e coisa, e coisa e tal.
A coisa pública não funciona no Brasil. Político, quando está na oposição, é uma coisa,
mas, quando assume o poder, a coisa muda de figura.
Quando elege seu candidato de confiança, o eleitor pensa: Agora a coisa vai...
Coisa nenhuma! A coisa fica na mesma.
Uma coisa é falar; outra é fazer. Coisa feia! O eleitor já está cheio dessas coisas!
Se as pessoas foram feitas para ser amadas e as coisas, para serem usadas,
por que então nós amamos tanto as coisas e usamos tanto as pessoas?
Bote uma coisa na cabeça: as melhores coisas da vida não são coisas.
Há coisas que o dinheiro não compra: paz, saúde, alegria ‘y otras cositas más’.
Mas, deixemos de coisa, cuidemos da vida, senão chega a morte, ou coisa
parecida...
Por isso, faça a coisa certa e não esqueça o grande mandamento:
"AMARÁS A DEUS SOBRE TODAS AS COISAS DO CÉU E DA TERRA.
Quer dizer que no céu também tem a coisa.
Entendeu o espírito da coisa?”
Heitor Rodrigues Freire – Corretor de imóveis e advogado.

Não conheço nenhum termo mais abrangente, mais universal e que designe tantos fatos, objetos reais ou abstratos, do que coisa. Coisa é tudo o que existe ou pode ter existência. É tudo o que não pode ser particularizado pelo nome.

Quando Deus criou Adão, deu-lhe competência para dar nome a tudo e a todos. “Então Deus formou do solo todas as feras e todas as aves do céu. E as apresentou ao homem para ver com que nome ele as chamaria: cada ser levaria o nome que o homem lhe desse” (Gn 2,19). E Adão deu nome a tudo. NOME. De onde saiu então coisa? Acredito que saiu da impossibilidade de identificar determinadas situações ou objetos e também da preguiça mental do ser humano.

 
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Escrito por Heitor Freire   
Qui, 29 de Março de 2018 18:57
ÑE’ĒRYRU
Cultura é o conjunto de manifestações artísticas, sociais, linguísticas e comportamentais de um povo ou civilização. Uma das atividades literárias mais exigentes, sem dúvida nenhuma, é a do dicionarista, do lexicógrafo. Ele tem que suar muito. No prefácio da segunda edição do Aurélio, o autor cita uns versos de Carlos Drummond de Andrade:
“Lutar com palavras
É a luta mais vã.
Entanto lutamos
Mal rompe a manhã”.
E complementa: “Em nossos casos particulares – o do Poeta e o deste aprendiz de lexicografia – há um diferença (deixem passar a confissão): a luta de Drummond principia ‘mal rompe a manhã’, a do aprendiz ordinariamente, vai até a manhã”.
Os dicionários remontam aos tempos antigos. Acredita-se que o dicionário tenha se originado na Mesopotâmia por volta de 2.600 a.C. Manufaturado em tabletes com escrita cuneiforme, ele informava repertórios de signos, nomes de profissões, divindades e objetos usuais, que funcionavam como dicionários unilíngues.
Os gregos no século I criaram os lexicons para catalogar os usos das palavras da língua grega. Os gregos e os romanos já os utilizavam para esclarecimentos de dúvidas, termos e conceitos. Todavia, não eram organizados em ordem alfabética. Limitavam-se às definições de termos linguísticos ou literários.
Foi somente no fim da Idade Média que houve o surgimento de dicionários e glossários organizados alfabeticamente. Quando as glosas desses manuscritos latinos tornaram-se numerosas, os monges as dispuseram em ordem alfabética para facilitar a localização. Com isso, surgiu uma primeira tentativa de dicionário bilíngue latim-vernáculo, ou seja, do latim e para a língua local da edição. Com o advento da imprensa, no século XV, alavancou-se a difusão e o uso de novos dicionários.
Aterrissando em nosso tempo e lugar, gostaria de apresentá-los ao Dicionário Guarani-Português/Português-Guarani, de autoria de Cecy Fernandes de Assis, um alentado volume de 954 páginas, lançado em 1999.
Cecy nasceu em Iguatemi, cidade ao sul do nosso estado, onde antigamente só se falava em espanhol e guarani. Mas na época da Segunda Guerra Mundial, o então presidente Getúlio Vargas baixou um decreto proibindo que se falasse alemão, italiano, japonês e também as línguas indígenas. Por isso os pais de Cecy tiveram que aprender a falar português. A partir daí que o guarani entrou no DNA da Cecy.
Cecy se casou com Luiz Carlos Pinho de Assis, funcionário do Banco do Brasil, em Ponta Porã. Fomos colegas no banco, nessa época, nos anos 60. Depois eles se mudaram  para Bauru, onde ela se graduou pela faculdade de Filosofia e Letras. Cecy é uma escritora nata, autora de mais de dez livros e muito perseverante.
Ela participou durante quatorze anos do Prêmio Casas de Las Américas em Cuba até que em 1999 conquistou o primeiro lugar, com o livro de Poesias “El Debo Del Es”. O prêmio foi de 3 mil dólares, o que lhe permitiu financiar a primeira edição do seu dicionário. E apesar do desinteresse inicial das editoras, o dicionário vendeu muito bem. A segunda edição já se esgotou e uma terceira está a caminho.
O dicionário da Cecy é, atualmente, parte do material de apoio no curso de guarani da USP. Está à venda no Paraguai, Argentina, Estados Unidos, Alemanha e nas grandes livrarias do Brasil.
As duas primeiras edições foram diagramadas por seu marido, Luiz Carlos. Na terceira edição tomará como base a diagramação do Oxford Portuguese/English Dictionary.
Para melhor entender a estrutura do guarani, a Cecy fez curso de japonês, porque segundo ela essas duas línguas têm a mesma estrutura linguística. Como parte da pesquisa de seu livro ela viajou ao Paraguai, onde fez curso com Bartomeu Melià, etnólogo, e Domingo Adolfo Aguilera Jiménez, hoje presidente da Academia de La Lengua Guarani/Aváñeé Rerekuapeve.
O título deste artigo, ÑE’ĒRYRU, significa dicionário em guarani.
Para melhor ilustrar o que representa a capacidade, competência e dedicação da Cecy, vou usar uma definição de mulher do seu dicionário: “Kuña Rembipe Mombyry” (mulher que brilha de longe).
Heitor Rodrigues Freire – Corretor de imóveis e advogado.

Cultura é o conjunto de manifestações artísticas, sociais, linguísticas e comportamentais de um povo ou civilização. Uma das atividades literárias mais exigentes, sem dúvida nenhuma, é a do dicionarista, do lexicógrafo. Ele tem que suar muito. No prefácio da segunda edição do Aurélio, o autor cita uns versos de Carlos Drummond de Andrade:

“Lutar com palavras

É a luta mais vã.E

ntanto lutamos

Mal rompe a manhã”.

E complementa: “Em nossos casos particulares – o do Poeta e o deste aprendiz de lexicografia – há um diferença (deixem passar a confissão): a luta de Drummond principia ‘mal rompe a manhã’, a do aprendiz ordinariamente, vai até a manhã”.

 
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