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Heitor Freire

Ava Marandu – Uma realidade que se impõe naturalmente

Há poucos dias tivemos em Campo Grande uma semana inteira de programação  do projeto AVA MARANDU: Os Guarani Convidam, iniciativa que procura expandir o conhecimento da cultura indígena em nosso estado.
As atividades incluíram concurso de redação, poesia, quadrinhos e desenho, divulgação da cultura e dos direitos dos povos Guarani, oficinas de cinema e fotografia nas aldeias, ação cultural em escolas e universidades.
A realização é do Pontão de Cultura Guaicuru, que tem como responsáveis a minha filha Andréa Freire e seu marido, Belchior Cabral.
Um dos objetivos do Pontão, como já disse Célio Turino, do Ministério da Cultura, é  “ mostrar o Brasil para nós mesmos”, trabalhar em parceria com diferentes grupos culturais e instituições e promover as culturas indígenas de Mato Grosso do Sul, integrando as comunidades em encontros que visam relacionamentos e programas de capacitação dos índios.
O projeto AVA MARANDU envolveu a cooperação do governo  federal –  através do Ministério da Cultura – com o municipal, por meio da prefeitura de Campo Grande,  além da sociedade civil  e das Nações Unidas.
Todos trabalharam em torno de uma causa de grande repercussão: os direitos humanos e a sustentabilidade dos povos indígenas. E é de se chamar a atenção para o mote  da iniciativa, pois “Os Guarani Convidam”, na tradução de AVA MARANDU, se cristaliza o objetivo original do projeto: “o convite”.
Esse projeto cultural, cuja realização acontece de 1° de janeiro a 30 de junho de 2010, reúne atividades voltadas para as questões dos direitos dos  povos Guarani. O foco da iniciativa é sensibilizar a população em geral para as gravíssimas violações  que afligem os Guarani, os Kaiowa e os Ñandeva de Mato Grosso do Sul, que somam uma população superior a 40 mil pessoas.
Inicialmente, o projeto aconteceria em Dourados, mas sem o apoio da prefeitura local, ficou inviabilizada a realização naquela cidade. Após meses de debate sobre o assunto e com o apoio do prefeito de Campo Grande,  Nelsinho Trad Filho, que entendeu  a grandeza  do projeto,  a  organização optou por transferi-lo para nossa capital.
A proposta é de uma nova percepção, pelas futuras gerações, da cultura, dos valores e dos direitos dos povos Guarani como integrantes de coletividades indígenas e como cidadãos brasileiros, e também introduzir um novo patamar de discussão para a questão indígena em Mato Grosso do Sul, com a ampliação do debate sobre diversidade cultural no Brasil.
As Nações Unidas manifestaram seu apoio ao presente projeto, incumbindo-se de convidar artistas, atletas e personalidades, conhecidos como “embaixadores das Nações Unidas” para participarem do evento, que como tal se manifestaram durante o período  do encontro. Entre eles,  Ney Matogrosso,  Ronaldo Fenômeno e também Milton Nascimento, que se apresentou na praça do Rádio Clube no dia 15 último.
A realização do projeto  é o resultado da união de diversos parceiros e visa criar condições para que os não indígenas conheçam, compreendam e reconheçam os valores e a cultura dos índios, o direito à igualdade e o  respeito às diferenças.
Em seu discurso por ocasião da visita ao Museu do Índio, Américo Córdula, secretário de identidade e diversão cultural do Ministério da Cultura, assumiu o compromisso público de criar novos espaços para a difusão da cultura indígena.
De um modo o geral, os índios são considerados um “estorvo”  por uma parcela significativa do poder público. As autoridades não entendem que eles são elementos naturais da população, como todos os outros segmentos que a compõem. Que são cidadãos e, como tal, têm direito à cidadania, e também obrigações, embora um pouco diferentes pela própria natureza do modo como vivem.
O ponto alto da programação da festa AVA MARANDU teve também um palco apropriado: a praça do Rádio Clube, que, como toda praça é do povo.
Com a realização desse encontro, atingiu-se grande parte dos objetivos do projeto: despertar a população do nosso estado para a  realidade do povo Guarani. Eles existem e merecem como qualquer ser humano – filhos de Deus que são, assim como  nós –  a atenção e o respeito de todos.
Pretender que os índios se aculturem é desconhecer a sua natureza, pois querer que passem a viver com a mentalidade do homem branco representa uma agressão e uma violação de seus princípios.
O que se busca é mais do que o respeito, é a consideração. Afinal de contas, quando os portugueses chegaram, o índios já estavam aqui e a sua relação com a terra é completamente diferente da nossa: eles não a vêem como mero meio de enriquecimento, mas como um fator de relacionamento com Deus, já que a terra  para eles é mística, mágica, sagrada.
Esperamos que de agora em diante haja uma atenção mais respeitosa com a comunidade indígena.

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