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Heitor Freire

Das Mulheres Bíblicas V

A figura de Maria, mãe de Jesus, é a mais emblemática no que diz respeito ao gênero feminino. A sua importância é fundamental. É tão forte que a Igreja Católica, sentindo  a sua força, inventou para cada país da América Latina uma padroeira, cuja aparição sempre ocorria de modo misterioso, milagroso. Como exemplo, temos no nosso país, a maneira como foi encontrada a imagem de Nossa Senhora da Aparecida.
Não foi diferente nos demais países. Assim, temos, por exemplo, no Paraguai, a Virgem de Caacupé; no México, a Virgem de Guadalupe; na Argentina, a Virgem de Luján; na Bolívia, a Virgem de Copacabana, no Chile, a Virgem do Carmo, e assim por diante. Isso foi trabalho dos jesuítas que sentiram que com essa ação conseguiriam convencer o povo com mais facilidade por meio da devoção pela mãe de Jesus, por dois motivos:  primeiro, por estimular a adoração que leva sempre à dependência e à idolatria; e  segundo,  em razão do apelo de mãe que, em qualquer lugar, em qualquer língua e em qualquer latitude é muito forte. E  Maria, mais ainda.
Maria, com 16 anos, noiva de José, recebe a visita do Anjo Gabriel, que lhe anuncia a concepção divina de Jesus, o que provoca nela uma reação natural, perguntando como se daria isso, pois não conhecia homem. Ante a resposta de Gabriel, de que ela seria coberta pelo Espírito Santo, aceita e se submete pacificamente à Vontade Superior. Nesse episódio há uma questão a ser elucidada: todo o texto bíblico anuncia Jesus na linha sucessória de Abraham e de Davi. Quem é descendente deles é José e não Maria.  Sendo assim se a linha sucessória prevalece, Jesus é filho de José. Se prevalecer o anúncio de Gabriel, a concepção se fez por ação do Espírito Santo.
Abstraindo-se essa questão que, para mim é irrelevante – porque o que vale é o exemplo que ele deu de amor ao próximo e os  ensinamentos que deixou perpetuados –  Jesus foi tão fundamental que a história da humanidade é narrada, antes e depois do seu nascimento. Não dá para imaginar o mundo ocidental sem a presença de Jesus.
O fato inquestionável é que Maria é mãe de Jesus. E a maternidade é uma certeza; a paternidade, uma possibilidade, como sempre repete o dr. Malcom Montgomery, renomado ginecologista brasileiro. E como tal Maria, teve uma influência muito forte na vida de Jesus. Acompanhou-o em toda a sua pregação, procurando entender o que ele ensinava, sendo acometida, muitas vezes, de grandes indagações. A ponto de Jesus em determinada ocasião, no epísódio do seu sumiço aos doze anos no templo, repreendê-la asperamente.
Como mãe devotada, mesmo não entendendo muito bem  o que ele fazia, ela nunca deixou de ser-lhe totalmente fiel e dedicada.
Outro ponto a considerar no que se refere a Maria, é a oração que lhe é dedicada: a Ave- Maria. Na segunda parte da oração reza-se “Santa Maria, mãe de Deus”. Maria é mãe de Jesus, não de Deus.  Deus não tem mãe. A oração como um todo foi aprovada pelo papa Sixtus V, no final do século XVI. O que, evidentemente, não diminui sua importância. Mas para que a oração seja veraz, deve-se rezar: “Santa Maria, mãe de Jesus”, que é como eu e a minha mulher, Rosaria, rezamos. Aliás, foi ela [Rosaria], que há muitos e muitos anos, chamou minha atenção para esse detalhe.
Entre as mulheres bíblicas – considerando-se a Bíblia como um todo, englobando também os evangelhos – sem dúvida nenhuma, uma das mais enigmáticas e importantes é Maria de Magdala, depois conhecida como Maria Madalena.
Maria Madalena, ao que tudo indica, era uma das mulheres “que socorriam a Jesus com suas posses”. Há também uma outra interpretação, de que ela teria sido a adúltera que foi salva por Jesus do apedrejamento. Mas ela não era casada, e como tal, não poderia ser adúltera. O que se procurou desde sempre foi uma tentativa de desmoralizá-la.
A sua importância na Cristandade,  é fundamental. Maria Madalena esteve o tempo todo acompanhando Jesus, seguindo-o até o fim. Junto a Maria, sua mãe, assistiu a sua crucificação. Ela é tão importante que na ressurreição, foi a ela que Jesus apareceu. Foi ela também que comunicou aos apóstolos – os quais com exceção de João se dispersaram, com medo, escondendo-se – que ele havia ressuscitado.
Para confirmar e consagrar a sua importância, ela é referida nominalmente mais de dez vezes no Novo Testamento. Foi também a única mulher mencionada pelos quatro evangelistas. Foi ela a encarregada de proclamar a mensagem. Uma mulher: Maria Madalena.
O carinho e o respeito que Jesus lhe proporcionava eram tão grandes que despertavam – e ainda hoje despertam – ciúmes, levando a sua ação a ser totalmente distorcida. Diz-se que Pedro, inclusive, tinha muito ciúme dela.
Maria Madalena foi a pessoa mais próxima de Jesus em toda a sua caminhada. A sua dedicação era tão grande que acabou suscitando uma versão totalmente deturpada, sem confirmação,  procurando-se diminuir a sua importância.
A Igreja Católica estigmatizou Maria Madalena como uma mulher promíscua, devassa. Faz pouco tempo que o Vaticano corrigiu essa sua posição. Ela é considerada santa pelas Igrejas Ortodoxa e Anglicana.
O Evangelho de Maria Madalena – encontrado em 1896, em um mosteiro egípcio – relata que ela teria sido uma discípula de Jesus de suma importância, à qual ele teria confiado informações que não foram passadas aos outros discípulos, o que seria a causa dos ciúmes entre eles.
Com este artigo encerro a série “Das Mulheres Bíblicas”.

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