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Heitor Freire

Dos Embalos à Noite na Acrissul

A Associação dos Criadores do Estado de Mato Grosso do Sul – Acrissul – é uma das associações de classe mais antigas do nosso estado. Foi criada nos anos 30 para congregar os pecuaristas da região, tendo como líderes inicialmente Laucídio Coelho, Etalívio Pereira Martins, Osvaldo Arantes e tantos outros fazendeiros destacados que se uniram criando um espaço para a exposição de gado, centro de negociação e comercialização que, com o passar dos tempos e o crescimento da atividade pecuária, passou a conquistar um espaço cada vez maior, abrangendo aos poucos outras atrações correlatas. Lembro-me quando era guri, como esperava com ansiedade a chegada da data da exposição, para ali passear, já que naquela época poucos eram os atrativos da nossa cidade.
Com o passar do tempo, a exposição foi se ampliando, atraindo outras entidades, como o Asilo São João Bosco, da velhice desamparada, e também o Lions Clube, que participavam oferecendo churrasco, e no caso do Lions, macarronada com a massa preparada na hora. Lembro-me do meu irmão Hernane, durante um período presidente de um dos clubes dos leões, preparando ele mesmo com a sua mulher e seus companheiros de clube a massa para cozinhar o macarrão na hora. Era uma festa. As minhas filhas empolgadas com o trabalho do tio se ofereciam e participavam como garçonetes servindo as mesas. Para elas tinha o seu charme servir na barraca do Lions, que era uma das mais bem freqüentadas pela moçada.
 Com a evolução dos negócios e a ampliação das atividades, com o crescimento da nossa cidade, já capital, outros empreendimentos naturalmente encontraram no local o espaço próprio para apresentação de atrações musicais  – no caso dos shows – e assim contribuíram para uma expansão das utilizações do local.
Conheço o promotor de justiça Alexandre Lima Raslan desde que ele era  criança. O seu pai, dr. Omar Raslan, é meu amigo de infância, meu colega de turma da faculdade de direito, com quem convivo portanto, há muitos anos. A sua mãe, professora Leide Lima Raslan, foi professora de minhas filhas no colégio das irmãs. Sei da seriedade, da dedicação e da competência com que o Alexandre desempenha as suas funções. Não é homem de dar entrevistas com muita freqüência. Só fala quando precisa e o estritamente necessário.
Como se sabe, o parque Laucídio Coelho está sob embargo da justiça porque o local foi considerado inadequado para a realização de shows musicais. Não tem tratamento acústico, e o impacto nas imediações do parque causa grande transtorno para os moradores vizinhos, como é o caso de estacionamento irregular de carros em dia de show. Além disso, os shows não tem hora para acabar, e os moradores têm passado madrugadas em claro sem poder dormir com o som alto noite adentro. Só quem mora lá perto sabe do incômodo que isso significa.
Para o resto da população, pode parecer que esse embargo do parque é obra de quem quer “atrapalhar a vida cultural” da cidade, ou coisa parecida. Tenho certeza  que não é essa a intenção do promotor Raslan. É claro que todos queremos que nossa cidade ofereça uma vida cultural rica e variada, mas isso não pode se dar à custa do sossego de uma parte da população. Pimenta nos olhos dos outros é refresco.
Portanto, nesse episódio  em que o Parque de Exposições da Acrissul foi interditado judicialmente por ato do Tribunal de Justiça, qualquer imputação que se faça ao dr. Alexandre Raslan soará como falsa. Ele é um homem do diálogo, sempre procura o consenso, dá prazos para atendimento das exigências e só age juridicamente quando todas as tentativas de acordo fracassarem.
Foi o que aconteceu. A Acrissul foi notificada há anos para tomar as providências necessárias para adequar o local para a continuidade dos shows que lá se realizam periodicamente. E não fez a sua parte. Parece que a sua diretoria esperava que a influência da entidade fosse suficiente para colocá-la acima do bem e do mal.
Quando a Acrissul se viu sob uma decisão judicial determinante da suspensão dos shows, a entidade veio a público pretendendo talvez, obter um apoio popular favorável. Deu com os burros n’água.
A questão está agora no âmbito da Câmara Municipal. Espera-se que os nobres edis ajam com discernimento e que procurem obter as informações verdadeiras para não embarcar em canoa furada.
O atual presidente da Acrissul, Francisco Maia, é um empresário de alto coturno e grande capacidade. Está saneando as finanças da entidade. Foi vereador, presidente da Câmara Municipal, vice-prefeito de Campo Grande.
Eu que também conheço o Chico Maia, desde criancinha – quando ele chegou com a sua família em Ponta Porã  foi morar em casa alugada da minha sogra, ao lado da minha –, espero e desejo que tome uma atitude condigna. E procure, naturalmente, adequar as instalações do parque das exposições, cumprindo as exigências das nossas autoridades competentes, permitindo assim que a nossa população continue, dentro da legalidade, a desfrutar dos shows que ali se realizam, sem causar à vizinhança os incômodos que atualmente sofrem.
O valor arrecadado pela Acrissul e pelos promotores dos eventos permite que se cumpra a legislação, sem comprometer muito  os seus ganhos. E o cumprimento das exigências se tornará um investimento a longo prazo, pois proporcionará a continuidade da exploração comercial do local. Acrescente-se que todos os shows são pagos. E o valor não é barato, não.
Heitor Freire –  Corretor de imóveis e advogado

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