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Heitor Freire

Novos Hábitos

O ser humano evoluiu desde as épocas mais primitivas de forma lenta, porém progressiva. O grande salto foi dado com as grandes invenções dos séculos XV, XVIII, XIX e XX. O advento do automóvel significou não só uma nova forma de deslocamento, mas também um novo status e tornou-se fonte de necessidades até então inexistentes, compelindo o homem a usufruir de outras utilidades que, gradativamente, foram sendo descobertas e inventadas.
Estamos vivendo novos tempos. E isso em todos os segmentos de atividades. No campo religioso, com a proliferação imensa de novas denominações, o que é também um sinal dos tempos; no campo científico, com descobertas de novas tecnologias a cada dia; no campo do pensamento, com a evolução natural do ser humano; no relacionamento entre as pessoas, no crescimento acelerado das cidades, com o aumento populacional em progressão quase geométrica, enfim, novos tempos estão aí. Ou aqui.
Isso nos levou a modificar nossos hábitos em função das novas descobertas. Ao mesmo tempo que o ser humano se vê “invadido” por essas novas tecnologias que o assustam, paradoxalmente, ele se volta para práticas antigas que passam a ser ressuscitadas, em função da reflexão para a retomada de antigos hábitos.
Aqui em nossa cidade, privilegiada (que não me canso de repetir), assistimos a uma expansão viária, com abertura de novas e amplas avenidas, em total sintonia com o pensamento e o espírito empreendedor de Nilo Javary Baren, engenheiro visionário que estabeleceu o arruamento inicial do nosso incipiente município, nos idos de 1910.
O que se confirma, por exemplo, com a bela Avenida Duque de Caxias, totalmente sinalizada, amplamente iluminada (em março deste ano, em artigo publicado eu me referia a essa mesma avenida, na época, como descaso da administração municipal, pelo estado em que se encontrava), e também com as avenidas José Barbosa Rodrigues, Heráclito Figueiredo, Jânio Quadros, entre outras.
Essas novas avenidas nos permitem o deslocamento de um extremo ao outro da cidade em aproximadamente 20 minutos de carro, e estão circundadas por ciclovias modernas – do projeto total da prefeitura, que é de construir 100 km de ciclovias, já dispomos de 52,6 km de ciclovias implantadas. Aliado a um transporte urbano também moderno, com frotas de ônibus novos e confortáveis, muitos com ar condicionado, o projeto da prefeitura nos estimula a mudar os hábitos de transporte, adotando a bicicleta, ou o ônibus, deixando paulatinamente o uso do automóvel. Isso gera um novo hábito que, acredito, poderá se impor gradativamente, até como alternativa para sairmos do círculo vicioso em que se transformou o automóvel e fugindo ao mesmo tempo dos engarrafamentos que já se tornam frequentes em nossa cidade.
A mudança, a única coisa imutável no universo, segundo Heráclito, implica inicialmente em insegurança, porque há um apego muito grande aos hábitos que cultivamos, implica também em coragem para mudar, para sair do engessamento que nos prende a uma mentalidade rígida, perdendo a fluidez, a flexibilidade e a criatividade inerentes à mudança. Sair desse apego é uma libertação. É uma escolha que a semente da oportunidade está apresentando a todos nós. Depende de cada um entender o que isso representa.
Três passos são necessários para implementarmos essa nova ação: Primeiro, aceitar esta mudança como algo que decidimos soberanamente, decisão clara, consciente. Segundo, nos responsabilizarmos pelas consequências decorrentes dessa decisão. Terceiro, não tentar convencer ninguém do nosso ponto de vista.
O poder público, juntamente com a Assetur (associação que congrega as empresas de ônibus), deveria criar uma campanha para mostrar à nossa população os benefícios que essa inovação pode representar para nossa cidade e para cada um, com a alegria inerente a toda iniciativa criativa. Para confirmar o que afirmei, fiz um percurso de ônibus na linha 061, tomando o ônibus na praça Ary Coelho, em direção ao terminal Guaicuru, às 11 horas da manhã, horário que é classificado como de meio pico. O percurso, que tem mais ou menos 6 quilômetros, foi feito em 20 minutos. O retorno levou 25 minutos.
Observei nesse breve trajeto um comportamento dos jovens que mostra o grau de civilidade e de solidariedade deles. Na ida, um rapaz ofereceu o seu lugar para uma senhora com uma criança nos braços. Na volta, um outro ofereceu o seu lugar para mim; e uma moça, para uma senhora grávida.
Temos 5 empresas concessionárias de ônibus, com uma frota de 548 ônibus, com idade média de 3 anos e meio de uso, que transportaram no ano passado (2010) 58.058.024 passageiros pagantes e 15.313.279 isentos de pagamento. Ou seja, as empresas também prestam um serviço social importante. Esses dados deveriam ser divulgados de forma maciça para que a população saiba, conheça e avalie melhor o serviço que lhe é prestado.
Enfim, novos hábitos se apresentam. Vamos circular de bicicleta ou de ônibus, adotando o que hoje se chama de slow living (estilo de vida mais lento ou suave).

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