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Heitor Freire

A celebração da morte

A CELEBRAÇÃO DA MORTE
O desconhecimento que obscurece nosso entendimento a respeito da vida e da sua finalidade acaba gerando insegurança, medo, dúvida, angústia e frustração com relação à morte.
Desde os tempos mais remotos, os seres iluminados têm orientado a humanidade para que cada um se volte para o seu interior, descobrindo a si mesmo. Inicialmente essa descoberta ficou restrita ao interior dos templos, sem acesso por parte das pessoas não iniciadas, chamadas de pessoas comuns, de profanos. Na realidade ninguém é comum, porque cada um tem em seu interior todo o instrumental necessário para sua evolução, para o seu aprimoramento e para sua libertação. Que só ocorre por intermédio do autoconhecimento.
As filosofias que tiveram o seu auge na Grécia antiga no século V antes de Cristo, tendo como expoentes máximos Sócrates, Platão e Aristóteles, constituíram-se na base do pensamento ocidental. E tinham como ensinamento básico: “Conhece-te a ti mesmo”. Esse período, as imediações do século V, foi uma época de ouro na história da humanidade. Viveram nesse período, além dos já mencionados, Hipócrates e Pitágoras na Grécia; na Índia, Buda e na China, Lao-tsé e Confúcio.
Entre os grandes legados que Pitágoras deixou, destacam-se Os Versos de Ouro, que expressam com clareza em poucas palavras o compromisso de vida dos pitagóricos de todos os tempos. Sua mensagem será provavelmente tão válida dentro de 20 ou 25 séculos à frente como era na Grécia e na Roma antigas. Por outro lado, durante a complexa transição presente para uma civilização planetária e democrática, os Versos apontam e sinalizam impecavelmente o caminho da auto-regeneração de cada indivíduo, que constitui a base fundamental para o renascimento coletivo da sabedoria.
Vejam estes versos:
31. Não faças nada que sejas incapaz de entender,
32. Mas aprende tudo o que for necessário aprender, e desse modo terás uma vida feliz.
Estes dois versos mostram que deve haver fidelidade entre o que se fala e o que se faz. É indispensável o sentimento de fidelidade.   Daí que a fidelidade deve ser consciente e coerente. Mas não deve ser rígida, cega, imutável.
Nessa caminhada para o mundo interior, para dentro de si mesmo, a humanidade foi evoluindo aos poucos. Dando um salto no tempo, chegamos a Santo Agostinho, cuja maior descoberta é a intimidade. E quando ele se questiona, diz: “Deum et animam scire cupio – quero conhecer a Deus e à alma. Nihil aliud, nada mais, absolutamente nada mais”.
Julian Mariás Aguilera, filósofo espanhol contemporâneo, acrescenta: “Espiritual não quer dizer não-material; há uma tendência muito frequente de entender o espiritual como aquilo que não é material; e não é disso que se trata, mas de algo muito importante: espiritual é aquela realidade que é capaz de entrar em si mesma, o poder de entrar em si mesmo é o que dá a condição de espiritual, não a não-materialidade. A insistência no imaterial ocultou o que é essencial, que é precisamente a capacidade de entrar em si mesmo.”
Ele continua:
“Por isso Santo Agostinho dirá: não vá fora, entra em ti mesmo: no homem interior habita a verdade: Noli foras ire, in te ipsum redi: in interiore homine habitat veritas. Essas palavras são de uma enorme relevância, são até de um extraordinário valor literário. É disso que se trata: do homem interior. A descoberta é a interioridade, a intimidade do homem.
E é justamente Santo Agostinho quem vai perceber que quando o homem fica apenas nas coisas exteriores, esvazia-se de si mesmo. Quando entra em si mesmo, quando se recolhe na sua intimidade, quando penetra precisamente naquilo que é o homem interior, o mundo interior – naturalmente existe um mundo exterior também, mas o decisivo é o mundo interior –, é justamente aí que Deus se encontra. É aí que se pode encontrá-Lo, e não nas coisas, não imediatamente nas coisas. Primariamente, por experiência, em algo que é justamente sua imagem”.
Para Santo Agostinho, “é preciso levar a sério que o homem é imago Dei, imagem de Deus. É evidente que para encontrar a Deus, o primeiro passo, e o mais adequado, será buscar sua imagem, que é o homem como intimidade, o homem interior.”
E é essa busca que precisamente vai libertar o ser humano de todo preconceito, vai levá-lo para o seu interior, onde encontrará a verdade e se libertará. Jesus disse: “Buscai a verdade e ela vos libertará”.
Assim, a partir dessa descoberta cessará toda angústia, toda incerteza, toda frustração e como consequência lógica, o medo da morte.
A morte é um acontecimento certo e inevitável na vida de cada um de nós, embora seja indesejável pela maior parte das pessoas. E isto porque ignoram o seu benefício.
É um acontecimento para ser celebrado e não lamentado. Ela nos iguala a todos. Mais cedo ou mais tarde, de uma maneira ou de outra, seremos confrontados com ela.
Eu tenho certo fascínio pela morte. Parafraseando Che Guevara: “Quando vier, será bem-vinda”.
Heitor Freire – Corretor de imóveis e advogado.

O desconhecimento que obscurece nosso entendimento a respeito da vida e da sua finalidade acaba gerando insegurança, medo, dúvida, angústia e frustração com relação à morte.

Desde os tempos mais remotos, os seres iluminados têm orientado a humanidade para que cada um se volte para o seu interior, descobrindo a si mesmo. Inicialmente essa descoberta ficou restrita ao interior dos templos, sem acesso por parte das pessoas não iniciadas, chamadas de pessoas comuns, de profanos. Na realidade ninguém é comum, porque cada um tem em seu interior todo o instrumental necessário para sua evolução, para o seu aprimoramento e para sua libertação. Que só ocorre por intermédio do autoconhecimento.

As filosofias que tiveram o seu auge na Grécia antiga no século V antes de Cristo, tendo como expoentes máximos Sócrates, Platão e Aristóteles, constituíram-se na base do pensamento ocidental. E tinham como ensinamento básico: “Conhece-te a ti mesmo”. Esse período, as imediações do século V, foi uma época de ouro na história da humanidade. Viveram nesse período, além dos já mencionados, Hipócrates e Pitágoras na Grécia; na Índia, Buda e na China, Lao-tsé e Confúcio.

Entre os grandes legados que Pitágoras deixou, destacam-se Os Versos de Ouro, que expressam com clareza em poucas palavras o compromisso de vida dos pitagóricos de todos os tempos. Sua mensagem será provavelmente tão válida dentro de 20 ou 25 séculos à frente como era na Grécia e na Roma antigas. Por outro lado, durante a complexa transição presente para uma civilização planetária e democrática, os Versos apontam e sinalizam impecavelmente o caminho da auto-regeneração de cada indivíduo, que constitui a base fundamental para o renascimento coletivo da sabedoria.

Vejam estes versos:

31. Não faças nada que sejas incapaz de entender, 

32. Mas aprende tudo o que for necessário aprender, e desse modo terás uma vida feliz.

Estes dois versos mostram que deve haver fidelidade entre o que se fala e o que se faz. É indispensável o sentimento de fidelidade.   Daí que a fidelidade deve ser consciente e coerente. Mas não deve ser rígida, cega, imutável.  

Nessa caminhada para o mundo interior, para dentro de si mesmo, a humanidade foi evoluindo aos poucos. Dando um salto no tempo, chegamos a Santo Agostinho, cuja maior descoberta é a intimidade. E quando ele se questiona, diz: “Deum et animam scire cupio – quero conhecer a Deus e à alma. Nihil aliud, nada mais, absolutamente nada mais”.

Julian Mariás Aguilera, filósofo espanhol contemporâneo, acrescenta: “Espiritual não quer dizer não-material; há uma tendência muito frequente de entender o espiritual como aquilo que não é material; e não é disso que se trata, mas de algo muito importante: espiritual é aquela realidade que é capaz de entrar em si mesma, o poder de entrar em si mesmo é o que dá a condição de espiritual, não a não-materialidade. A insistência no imaterial ocultou o que é essencial, que é precisamente a capacidade de entrar em si mesmo.” 

Ele continua: 

“Por isso Santo Agostinho dirá: não vá fora, entra em ti mesmo: no homem interior habita a verdade: Noli foras ire, in te ipsum redi: in interiore homine habitat veritas. Essas palavras são de uma enorme relevância, são até de um extraordinário valor literário. É disso que se trata: do homem interior. A descoberta é a interioridade, a intimidade do homem. 

E é justamente Santo Agostinho quem vai perceber que quando o homem fica apenas nas coisas exteriores, esvazia-se de si mesmo. Quando entra em si mesmo, quando se recolhe na sua intimidade, quando penetra precisamente naquilo que é o homem interior, o mundo interior – naturalmente existe um mundo exterior também, mas o decisivo é o mundo interior –, é justamente aí que Deus se encontra. É aí que se pode encontrá-Lo, e não nas coisas, não imediatamente nas coisas. Primariamente, por experiência, em algo que é justamente sua imagem”. 

Para Santo Agostinho, “é preciso levar a sério que o homem é imago Dei, imagem de Deus. É evidente que para encontrar a Deus, o primeiro passo, e o mais adequado, será buscar sua imagem, que é o homem como intimidade, o homem interior.” 

E é essa busca que precisamente vai libertar o ser humano de todo preconceito, vai levá-lo para o seu interior, onde encontrará a verdade e se libertará. Jesus disse: “Buscai a verdade e ela vos libertará”.

Assim, a partir dessa descoberta cessará toda angústia, toda incerteza, toda frustração e como consequência lógica, o medo da morte.

A morte é um acontecimento certo e inevitável na vida de cada um de nós, embora seja indesejável pela maior parte das pessoas. E isto porque ignoram o seu benefício.

É um acontecimento para ser celebrado e não lamentado. Ela nos iguala a todos. Mais cedo ou mais tarde, de uma maneira ou de outra, seremos confrontados com ela.

Eu tenho certo fascínio pela morte. Parafraseando Che Guevara: “Quando vier, será bem-vinda”.

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