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Heitor Freire

Nihil Aliud

Os momentos que estamos vivendo de perplexidade, situações inusitadas, busca de novas alternativas e de um novo modelo de vida provocam insegurança, medo, e frustrações nas mentes que viviam numa aparente e ilusória tranquilidade.

O momento atual oferece – para quem tem olhos para ver, ouvidos para ouvir e mente para discernir –, ao contrário do que parece, uma oportunidade de ouro. E nos proporciona evolução física, mental e espiritual.

Penso que todos nós temos noção de que somos seres originais. Não há ninguém, em todo o Universo, igual a mim. Nem igual a vocês, leitores. Tomos somos seres únicos, individuais. Embora sejamos parte, cada um, de um grupo: familiar, social, profissional, religioso, filosófico.

Assim, em momentos como este, quando somos confrontados com uma nova realidade, acabamos voltando-nos para nós mesmos e alcançando a dimensão da eternidade. O que nos cabe fazer é, permanentemente, contribuir para o nosso aperfeiçoamento, nossa evolução, com aprendizado constante. Não existem férias nem descanso.

É hora de parar, refletir, pausar, aperfeiçoar e aproveitar estes dias de recolhimento que são preciosos – apesar de estranhos – para descobrir quem somos de verdade, abraçando este tempo de transição, partindo para a jornada interior, deixando o supérfluo do lado de fora. Não adianta buscar fora o que está dentro.

E também aprender a cultivar o silêncio. É no silêncio que o Cósmico, o Ser Divino, torna-se manifesto à nossa consciência. Para que ouçamos a orientação divina, para termos lampejos de intuição, devemos aprender a silenciar a voz subjetiva do nosso pensamento. Quanto mais falamos, mais nos enfraquecemos, porque usamos a energia da fala de maneira inconsequente.

É muito salutar a prática do silêncio, pois a regularidade na sua observação por alguns minutos todos os dias, de preferência no mesmo horário, concorre para ativar a memória e a atenção concentrada, tendo como consequência o enriquecimento natural que advém dessa prática.

A disciplina do silêncio constitui poder; ela nos permite manter dentro de nós um influxo de vitalidade que palavras inúteis desperdiçam. O silêncio ajuda a subir mais um degrau na escada da espiritualidade. É no silêncio que encontramos o poder que existe dentro de cada um de nós.

É necessário experimentar o silêncio, porque essa ação fará a conexão com o nosso verdadeiro eu e com o hoje, respeitando o passado, e libertando a ansiedade sobre o futuro. Há uma dignidade majestosa no silêncio, que se manifesta de forma soberana quando silenciamos nossa mente.

Segundo Aristóteles, o homem ideal suporta os acidentes da vida com dignidade e graça, tirando o máximo proveito de suas circunstâncias, como um habilidoso general conduz suas limitadas forças com toda a estratégia da guerra. Ele é o melhor amigo de si mesmo e se delicia com a privacidade, ao passo que o homem sem virtude ou capacidade alguma é o pior inimigo de si mesmo e tem medo da solidão. E o mesmo filósofo dizia que o homem livre é o senhor de sua vontade, e escravo apenas de sua própria consciência.

Deus quando nos criou dotou-nos de todas as qualidades e atributos necessários para nossa evolução e para o nosso trabalho na Terra e na espiritualidade.

Mas nós, por desconhecimento disso, vivemos buscando fora o que está dentro. Não precisamos de nada mais do que já temos. O nosso trabalho é descobrir e utilizar todo o nosso potencial. O que precisamos e que é indispensável são Deus, o nosso autoconhecimento e a nossa intimidade, como escreveu Santo Agostinho.

E nada mais, ou em bom latim: Nihil aliud.

Heitor Rodrigues Freire – Corretor de imóveis e advogado.

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