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Heitor Freire

Nos Tempos do Quartel – Parte 2

Na época em que eu servi o Exército, minha família morava na rua 7 de Setembro, nos fundos do mercadinho do meu pai, perto do centro da cidade. O quartel ficava no bairro Amambaí. Era proibido cruzar a linha do trem em uniforme de instrução, a roupa que usávamos o dia todo no quartel, mas eu sempre dava um jeito e chegava em casa com o uniforme de instrução.

Naquela época, a PE – a Polícia do Exército – fazia o policiamento em relação aos soldados do Exército. Pois bem, num belo dia saí de casa com uniforme de instrução, andando tranquilamente, quando me encosta um jipão do hospital militar e o cabo motorista me diz: “Sobe rápido, que o Pita tá chegando”. Subi correndo, e ele partiu a toda. Olhei para trás e tive o alívio de ver o cabo Pita profundamente frustrado.

O cabo Pita era o terror de todos os soldados. Comandava uma guarda da PE, com três soldados rastreando a cidade para pegar algum soldado descuidado.

Aos domingos à noite, antes da sessão de cinema no Cine Alhambra, havia o tradicional “footing” na rua 14 de Julho, entre a Afonso Pena e a Dom Aquino. Os homens ficavam encostados nas casas e as meninas desfilavam daqui pra lá e de lá pra cá, andando no asfalto mesmo, porque o trânsito de carros era suspenso. Numa noite dessas, estávamos alguns soldados fardados – a minha roupa impecável (a minha mãe fazia questão de caprichar na minha túnica) –, assistindo o vai e vem, quando o Cleber, meu companheiro de quartel, de molecagem, tira o meu quepe e sai correndo. O Pita e sua guarda estavam a menos de 50 metros dali. Eu saí em disparada até alcançar o Cleber, que não parava de rir. Mais uma vez, eu consegui me safar do Pita. Ele nunca conseguiu me pegar.

No quartel jogávamos bola militar, uma espécie de futebol americano, com bola ovalada. Tinha um cabo, o Wolf, imenso, com 1m90 de altura e 2m de largura, que ninguém conseguia alcançar. Ele era do tipo atleta, que todo ano participava da Corrida do Facho, no Dia do Soldado. Quando ele pegava a bola, era gol na certa. Quando estávamos no mesmo time, tudo bem. Mas sempre que ele estivesse no outro time, eu decidi que iria pará-lo. Não falei para ninguém. Um dia, em times contrários, ele pegou a bola no campo dele e partiu para o nosso, numa corrida federal. Eu parti na diagonal e me joguei contra ele, agarrando firme na cintura dele. Consegui derrubar o Wolf! Saímos rolando pelo campo. E ele não passou. A partir daí, ele ficava me marcando. Felizmente, nunca tivemos atritos. Eu é que não ia me meter a besta de desafiá-lo fora do campo.

Certa vez, o comando da 9ª Região Militar organizou uma manobra militar que incluía todos os quartéis da cidade. Foi uma experiência interessante. Fomos para o campo, simulando ataques e defesas de uma equipe contra outra. Foi quando conheci a metralhadora Ponto 50. Tirei até uma foto fingindo usá-la.

Pois bem, de noite, após as manobras, no relax, os soldados ficavam por ali descansando e a sargentada entrava na cerveja. Tinha um sargento japonês, de pouca estatura que ficava bem desconfortável com o capacete de aço, e ficava reclamando. Nessa noite, após a cervejada, seus colegas sumiram com o capacete dele. E ele já meio tonto, mas preocupado com o sumiço do capacete, rodava o campo perguntando a todos: “Cadê meu capacete, ahn?” E eu adotei esse palavreado. Minhas filhas cresceram me ouvindo dizer, quando sumia alguma coisa lá em casa: “Cadê meu capacete, ahn?”.

No quartel, vivi uma experiência inesquecível. Todos os anos, cabia a uma companhia o atendimento no Clube Militar durante as festas juninas. Naquele ano, 1959, a minha guarnição foi a encarregada. Assim, no dia da festa, lá estava eu, de uniforme, atendendo como garçom. De repente, vi uma menina que me impressionou muito. Olhei de novo e gostei dela de cara. Logo pensei: “Essa menina não vai dar bola para um soldado raso”, mas aquela primeira impressão ficou marcada. Depois de casado, conversando com a Rosaria, minha mulher há mais de 50 anos, sobre o meu período de quartel, contei para ela sobre esse dia, e aí vem o incrível. Ela me disse que também estava naquela festa, e entrou na barraca de uma cigana que lia a mão. A cigana disse pra ela: “O seu futuro marido está aqui nesta festa”.  E nós nem sonhávamos em nos conhecer ainda. Tenho certeza que aquela menina linda que me encantou era ela mesma!

Continua…

Heitor Rodrigues Freire – Corretor de imóveis e advogado.

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