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Heitor Freire

Em Busca do Ouro

Depois de morar no Rio, quando passei no concurso para o Banco do Brasil, fui localizado na agência de Ponta Porã, na fronteira com Pedro Juan Caballero (Paraguai), onde nasci. Ali vivi muitas experiências que marcaram minha vida. Umas dramáticas, outras nem tanto. Hoje me refiro a uma delas.

Quem nasceu na fronteira Brasil-Paraguai desde o fim do século XIX até a minha geração, cresceu ouvindo, aqui e ali, várias histórias e lendas sobre a Guerra da Tríplice Aliança. Entre essas lendas   persistiu, por muito tempo, uma esperança difusa de um dia encontrar o ouro que, segundo contavam, foi enterrado por Mariscal López, o comandante da guerra e chefe supremo do Paraguai naquela época. Falava-se muito que, juntamente com seu exército, ele carregava um tesouro imenso que foi sendo enterrando por onde passou.

O que se sabe é que nesse episódio há um fato e uma lenda: o fato é que na reta final da  guerra ao sentir que tudo se encaminhava para um desenlace desfavorável, López começou a transportar carretas e mais carretas carregadas de ouro.

No livro História de Mato Grosso do Sul, de autoria do professor Hildebrando Campestrini e Acyr Vaz Guimarães (5ª edição, IHGMS), há uma referência: “Os coronéis Sosa e Delvalle (do exército paraguaio), que, decididos a não acompanhar López, na fuga se haviam retirado (com carretama, soldados, canhões, civis, dinheiro e relíquias das igrejas paraguaias) para Sete Cerros, em terras hoje sul-mato-grossenses”. Naturalmente, com parte do tesouro.

A lenda: por onde andou, Mariscal López teria ordenado que se enterrasse parte do ouro e determinou também que se fizesse o enterro seletivo ao longo da fronteira, beneficiando, assim, uma larga faixa de terras.

O que se comenta a respeito desse possível episódio é fruto de conversa recorrente entre as pessoas mais antigas da região. Na época da minha juventude, quando voltei a morar em Ponta Porã nos anos 60 como funcionário do Banco do Brasil, essa conversa era frequente. Todos sonhávamos com isso.

Por duas vezes, me aventurei a buscar esse bendito ouro.

A primeira tentativa foi quando apareceu no banco um alemão com cara de cientista extraviado, dizendo-se portador de uma máquina inventada por ele mesmo que conseguiria detectar metais enterrados, e poderia indicar o local do ouro escondido.

A primeira pergunta que fiz a ele foi: “Se é assim, por que o senhor mesmo não vai lá e desenterra?” Ele disse que não dispunha de recurso financeiro para essa operação, e me oferecia uma sociedade, desde que eu entrasse com o dinheiro. Falei com o meu concunhado, Júlio Baasch alemão catarinense, também funcionário do banco, e decidimos financiar a busca do “tesouro”.

Estabelecemos uma data e lá nos mandamos para a área rural, onde, segundo o nosso guia e parceiro, se encontrava o tal ouro escondido. Passamos um dia inteiro sob um sol escaldante cavando em vários lugares que a bendita máquina indicava, e nada. Lá pelo meio da tarde, nos entreolhamos e chegamos à conclusão de que estávamos sendo cobaias de uma aventura do tal “cientista”. E voltamos para a cidade de mãos vazias.

A segunda vez já envolveu um risco muito grande, mas naquela época, entusiasmados pela possibilidade de encontrar uma fortuna, não nos demos conta do perigo. Aconteceu assim: nós, funcionários do Banco do Brasil, formávamos uma equipe unida e amiga.

Um dos nossos colegas do banco mencionou que no quintal da casa do seu sogro, à sombra de uma árvore majestosa, havia um tesouro enterrado e que ninguém sabia, só ele. E, assim, convidou seis colegas para desenterrar o ouro com ele. Fizemos um plano de ação, escolhendo cuidadosamente a noite em que invadiríamos o quintal.

Na noite combinada, nos deslocamos com as nossas mulheres – que ficaram na casa de um colega que morava ao lado da casa do “tesouro”, esperando enquanto os bravos desbravadores se aventuravam na caça ao ouro.

Por volta das onze da noite, silenciosamente entramos no quintal, devidamente equipados com lanternas e pás para a realização da operação de busca. E então, começamos a cavar. Cava daqui, cava dali, e nada de tesouro. Lá pelas tantas, já cansados de tanto cavar, chegamos à conclusão de que não havia nada.

Voltamos para a casa onde nos aguardavam as nossas já dorminhocas mulheres, que ao serem despertadas e informadas do nosso fracasso, e verificarem o estado das nossas roupas, ficaram decepcionadas e revoltadas.

O interessante é que essa tentação de ir em busca de um tesouro perdido contagiou também o professor Campestrini. Convivi com ele durante os doze anos em que fui vice-presidente do Instituto Histórico e Geográfico, quando ele era presidente. Ele me contou que um dia alguém lhe disse que na região de Jardim havia um enterro. Ele também acreditou, e junto com o informante, partiram em busca do tesouro que, depois de muito cavoucar, também se mostrou infrutífero.

 Levei muito tempo para compreender que o verdadeiro tesouro está dentro de nós, e não do lado de fora ou enterrado em um terreno qualquer: “Onde traça nem ferrugem corrói, e onde ladrões não escavam, nem roubam; porque, onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração” (Mateus 6,19-21).

Heitor Rodrigues Freire – Corretor de imóveis, advogado e caçador de tesouro frustrado.

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