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Heitor Freire

Mais do Mercadinho

Voltando ao Mercadinho Popular do meu pai na rua 7 de Setembro: na mesma quadra em que morávamos, antes da rua Rui Barbosa, tinha a Tinturaria São Paulo, de uma família de japoneses. Um dos destaques era o Bigode, baixinho, que pilotava um ferro imenso com brasa viva, passando roupas de linho, principalmente. Dava gosto de ver como ele se concentrava no trabalho, tendo o cuidado de não permitir que o suor que escorria do rosto atingisse as roupas. Quando terminava, ficava admirando o fruto do seu trabalho: as camisas ficavam flamantes!

A família tinha uma filha chamada Luísa, da minha idade, e que estudava como eu, à noite. Desde os 12 anos passei a estudar à noite, porque trabalhava no mercadinho durante o dia. Minha escola da época, o Ginásio Barão do Rio Branco (que integrava a Campanha Nacional de Educandários Gratuitos) funcionava no prédio da escola Joaquim Murtinho.

Pois bem. O Bigode, um dia, me perguntou se eu poderia acompanhar sua irmã até o ginásio. Eu disse que sim. E assim, durante três anos, da segunda até a quarta série ginasial, eu passava pontualmente na tinturaria, às 18:45. E lá já estava a Luísa, prontinha esperando. Ela chegava, nos cumprimentávamos, boa noite, boa noite, e íamos a pé até o ginásio. No mais absoluto silêncio. Na volta, a mesma coisa: até amanhã, até amanhã. Eu nunca podia participar das atividades pós aula com meus colegas, porque tinha esse compromisso de voltar com a Luísa. E assim foi, durante esses três anos. Em completo silêncio.

Um dia desses, conversando sobre a rua 7 de Setembro com o dr. João Pereira da Rosa – fundador e primeiro reitor da universidade estadual e depois federal –,  ele me contou que quando era menino, era encarregado de fazer cobrança para uma loja de tecidos, a Loja Nacional, de um judeu que vendia roupa para as meninas da rua 7, no mesmo período em que eu morei por lá. Todos os meses lá ia o Joãozinho, fazer suas cobranças.

Disseram pra ele que tivesse cuidado no trato com as meninas, porque poderia pegar uma doença venérea, o que lhe causava pavor, embora o relacionamento com elas fosse somente de cobrança, sem o menor contato físico. Mas menino, não sabia disso. Ele tinha um medo terrível das mulheres que tinha que cobrar. Entrava sem olhar para os lados e saía correndo com medo, sem que as meninas entendessem por que aquela pressa toda.

Desde meus tempos de guri na rua 7, sempre tive um profundo respeito e até reverência por todas as mulheres, independentemente de categoria social ou profissional. Para mim, são seres divinos.

Assim, vamos registrando fatos e acontecimentos de nossa história que merecem ser lembrados, alguns por inusitados, outros por marcarem nossa vida.

Heitor Rodrigues Freire – Corretor de imóveis e advogado.

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